Abelhas, cutias, sapos e castanheiras têm tudo a ver!

Na natureza, as espécies interagem de muitas maneiras.

A Amazônia é o lar de milhares de espécies de plantas, incluindo árvores gigantes. A castanheira-do-Pará, também conhecida como castanheira-do-Brasil ou castanheira-da-Amazônia (Bertholletia excelsa, para os cientistas), é uma dessas árvores e pode medir até 50 metros, tão alta quanto um prédio de 17 andares. Essa espécie ficou famosa no mundo todo por conta de suas sementes, as deliciosas e nutritivas castanhas.

A castanheira-da-Amazônia (foto maior), é nativa da floresta amazônica de diferentes países, incluindo o Brasil. Cada castanheira pode viver mais de 500 anos, mas elas estão ameaçadas de extinção, principalmente pelo desmatamento da floresta. Nas fotos menores: abelha polinizando flor de castanheira, um fruto fechado, um fruto aberto e uma cutia.
Fotos Wikipedia

Para uma castanheira produzir castanhas, primeiro ela precisa de abelhas. São elas que fazem a polinização das flores da castanheira, transferindo o pólen de uma flor para outra enquanto coletam o doce néctar. No Brasil, existem centenas de espécies de abelhas nativas, e algumas das maiores, como as mamangavas, são as polinizadoras das castanheiras.

As flores polinizadas darão origem aos “ouriços”, como são conhecidos os frutos da castanheira-da-Amazônia. Eles são bolotas duras, com uns dez centímetros de diâmetro, pesando até dois quilos. Quando maduros, os frutos caem lá do alto. Ziiiiiiuuuuu…. pum!

Uma vez no chão, os frutos serão abertos por cutias, roedores com dentes poderosos. As cutias roem a casca grossa e dura do fruto para pegarem as castanhas que ficam lá dentro. E é aí que coisas ainda mais incríveis acontecem. As cutias comem algumas sementes e enterram outras para comerem depois. Só que não conseguem achar todas as castanhas que enterraram, que acabam germinando, dando origem a novas castanheiras!

Depois que as cutias esvaziam o fruto da castanheira, ele vira uma cumbuca aberta no meio da floresta, que empoça água da chuva, formando uma piscina onde insetos, como mosquitos e libélulas põem ovos, e também alguns anfíbios encontrados só na Amazônia. O sapo Rhinella castaneotica e a perereca Osteocephalus castaneicola colocam seus os ovos lá. Já a pequena rã Adelphobates castaneoticus parece botar os ovos em folhas no chão, e assim que os girinos nascem, o pai os carrega até a “piscina” no fruto da castanheira, onde completarão seu desenvolvimento.

Quando vazios, os frutos da castanheira se enchem com água da chuva, criando um ambiente ideal para a reprodução de algumas espécies de anfíbios.
Foto Adriano O. Maciel
Foto Diego J. Santana
Foto Diego J. Santana

Abelhas que polinizam as flores, cutias que comem e “plantam” sementes, e insetos e anfíbios que se desenvolvem nos ocos dos frutos vazios. Diferentes espécies se relacionando com uma das mais belas árvores da Amazônia. São as ‘interações ecológicas’, e elas acontecem em toda a natureza. Até na praça, no parque ou na praia, você poderá ver diferentes seres vivos interagindo entre si. É só observar bem, cientista!


henrique-caldeira

Henrique Caldeira Costa,
Departamento de Zoologia
Universidade Federal de Juiz de Fora

Sou biólogo e muito curioso. Desde criança tenho interesse especial em pesquisar os seres vivos, especialmente o mundo animal. Vamos fazer descobertas incríveis aqui!

Matéria publicada em 04.12.2019

COMENTÁRIOS

  • Sonia da Conceição

    Parabéns Henrique! Amei saber essa relação ecológica entre as castanheiras e os animais citados, especialmente os anfíbios.

    Publicado em 22 de janeiro de 2022 Responder

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