Intrépida viagem

A ave conhecida como arribaçã (Zenaida auriculata) realiza migrações na Caatinga, acompanhando o ritmo das chuvas no Nordeste (foto: Ivan Sazima).

Já ouviu falar no trinta-réis? E no falcão-peregrino? Conhece o maçarico-de-peito-laranja? E o vira-pedra? Então, saiba que esses são os nomes populares de algumas das centenas de aves migratórias que existem. Essas aves, todos os anos, deixam o hemisfério norte da Terra e seguem para o sul em busca de uma maior oferta de alimento. Por isso, podem ser vistas no Brasil. Mas se você acha que a jornada desses animais é tranquila como uma viagem de férias… Está enganado! As aves migratórias precisam superar obstáculos que aparecem em seu percurso – muitos criados pelo ser humano.

“Há três principais barreiras naturais à migração das aves: os oceanos, os desertos e as cadeias montanhosas muito altas”, conta o ornitólogo – isto é, o especialista em aves – Daniel Honorato Firme, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “O ser humano, no entanto, também é responsável pela criação de barreiras que dificultam a migração das aves ao construir redes elétricas, arranha-céus, moinhos de vento para a captação de energia eólica ou antenas de transmissão de sinais de celular e televisão.”

O maçarico-real é uma ave migratória (foto: Rafy Rodriguez)

Estratégias de superação

Para enfrentar cada obstáculo natural, as aves têm uma estratégia. No caso dos oceanos, por exemplo, aves que vivem em terra firme costumam fazer as travessias em voos diretos, sem paradas para descanso ou alimentação. Já as aves marinhas – as que dependem dos mares e oceanos para sobreviverem – pousam na água para descansar e se alimentar.

Na época reprodutiva, o maçarico-do-peito-laranja fica com o peito alaranjado, como o seu nome indica (foto: Patrick Leary).

Com as barreiras criadas pelo ser humano, porém, a situação é diferente – e preocupante. Tanto que se tornou o tema de 2009 do Dia Mundial das Aves Migratórias, celebrado no início de maio.

“É comum ocorrer colisão de aves com prédios altos que são revestidos com vidro, material que confunde o animal. Os parques eólicos também se transformam em barreiras, sendo que, no Brasil, eles são geralmente encontrados na costa, local em que as aves migratórias se concentram”, conta o analista ambiental Elivan Arantes, do Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação de Aves Silvestres, ligado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. “Por isso é importante verificar, antes da construção desses empreendimentos, se eles não estão na rota de migração de alguma espécie de ave. O mesmo vale para a instalação de redes elétricas ou de antenas de celular ou TV.”

A ave migratória popularmente conhecida como vira-pedra é chamada assim porque tem o hábito de virar bolinhos de lama em busca de alimentos (foto: Alexandre Caminha).

Como as aves migratórias, geralmente, reproduzem-se em um país e migram para outros no inverno, em busca de locais mais quentes, com mais alimentos, a sua conservação depende de um esforço internacional. “A área que esses animais necessitam para continuar seu ciclo de vida é muito extensa”, conta o analista ambiental.

Para você ter uma ideia,  algumas aves migratórias percorrem milhares de quilômetros até chegar ao seu destino. Antes de partir, há espécies que comem exageradamente de forma a ter energia guardada para a viagem. Sem contar que, muitas vezes, enfrentam tempestades ou  furacões no caminho. Então, o que pudermos fazer para facilitar a jornada dessas viajantes é bem-vindo!

Você sabia?
– Estudos demonstram que algumas espécies de aves cruzam o deserto do Saara sem paradas, enquanto outras param ao atravessar os desertos da Ásia Central.
– Para atravessar os desertos, algumas espécies voam à noite, descansando em sombras e oásis durante o dia ensolarado.
– Aves regularmente cruzam cadeias montanhosas, como a do Himalaia, voando sem parar, mesmo diante de condições climáticas adversas, como tempestades. Algumas aves, porém, precisam parar para descansar, se alimentar ou mesmo se proteger.

Matéria publicada em 05.06.2009

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Com as aves batendo no vidro do prédio elas morrem?

    Publicado em 14 de abril de 2019 Responder

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Mara Figueira

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