Placa cabeluda

Olhe bem para a criatura da imagem abaixo. Você diria que é um animal? Pois acredite: é, sim, e se chama Trichoplax adhaerens.

Os curiosos animais da espécie <i>Trichoplax adhaerens</i> medem entre um e três milímetros e vivem no oceano, em regiões de águas tropicais e subtropicais. Recentemente, foram encontrados exemplares no litoral de São Paulo que provavelmente pertencem a uma nova espécie (Foto: Bernd Schierwater / CC BY-NC-SA 3.0)

Os curiosos animais da espécie Trichoplax adhaerens medem entre um e três milímetros e vivem no oceano, em regiões de águas tropicais e subtropicais. Recentemente, foram encontrados exemplares no litoral de São Paulo que provavelmente pertencem a uma nova espécie (Foto: Bernd Schierwater / CC BY-NC-SA 3.0)

Esse bicho esquisito – que, daqui em diante, chamarei de T. adhaerens – foi descoberto no Mar Adriático pelo zoólogo alemão Franz Schulze, e ganhou seu nome em 1883. À primeira vista, ele parece uma ameba, criatura que é um protozoário e não um animal. Mas foi só observá-lo com calma para descobrir que se tratava de um bicho!

Todos os animais são multicelulares – ou seja, têm muitas células –, enquanto os protozoários são seres unicelulares que, às vezes, vivem em grupos de muitos indivíduos – as colônias. Se o T. adhaerens fosse uma colônia de protozoários, suas células deveriam ser todas iguais. Só que, ao analisá-lo no microscópio, podemos ver que seu corpo é formado por camadas com cinco tipos de células, cada qual com uma função.

As células do corpo do T. adhaerens que ficam em contato com o ambiente possuem uma estrutura chamada flagelo, usada para locomoção. Os flagelos lembram fios de cabelo, embora sejam muito menores e com uma estrutura diferente. Esta semelhança dos flagelos com pelos e a forma achatada do corpo do bichinho são a origem do nome Trichoplax, que quer dizer “placa cabeluda” em grego. Já o nome específico, adhaerens – “aderente”, em latim – se deve ao fato de a criatura grudar em vidros e outras superfícies lisas.

O <i>T. adhaerens</i> se alimenta geralmente de pequenas algas, que são envolvidas com a parte inferior do seu corpo. As células do animal eliminam substâncias digestivas no alimento, que depois é absorvido. Quando cresce bastante, um <i>Trichoplax</i> pode se reproduzir dividindo-se em dois, como mostra esta imagem (Foto: Schierwater Lab / http://www.trichoplax.com/pages/page_15.html)

O T. adhaerens se alimenta geralmente de pequenas algas, que são envolvidas com a parte inferior do seu corpo. As células do animal eliminam substâncias digestivas no alimento, que depois é absorvido. Quando cresce bastante, um Trichoplax pode se reproduzir dividindo-se em dois, como mostra esta imagem (Foto: Schierwater Lab / http://www.trichoplax.com/pages/page_15.html)

Atualmente, o T. adhaerens é uma espécie muito estudada, mas, no passado, chegou a ser esquecida durante décadas. O motivo disso é que, em 1922, o pesquisador Thilo Krumbach publicou em uma famosa série de livros de zoologia sua ideia de que T. adhaerens era, na verdade, a larva de uma água-viva já conhecida pelos cientistas.

O engano só foi desfeito quando, em 1969, o pesquisador Karl Grell encontrou o T. adhaerens no Mar Vermelho. Após muito estudo, o cientista afirmou que não se tratava de uma larva de água-viva, como vinha sendo dito há quase 50 anos, mas de uma espécie realmente diferente. Tão diferente que merecia ser incluída em um novo filo, só para ela!

Todos os animais são agrupados em filos, de acordo com suas características. Insetos e crustáceos, por exemplo, são membros do filo Arthropoda, enquanto lulas e polvos são do filo Mollusca. Já que o T. adhaerens é tão distinto, Karl Grell criou só para ele o filo Placozoa – “animal achatado”, em grego.

A classificação diferenciada do T. adhaerens é hoje confirmada também pelas informações do seu DNA. Estudos recentes indicam, também, que o filo Placozoa parece ser bem maior do que se pensava, com talvez 200 ou mais espécies, em vez de uma só. Pelo visto, ainda há muito para se estudar sobre esses bichos!

Matéria publicada em 01.11.2013

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Henrique Caldeira Costa

Curioso desde criança, Henrique tem um interesse especial em pesquisar a história por trás dos nomes científicos dos animais, que partilha com a gente na coluna O nome dos bichos

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