O rabo do dinossauro e a cauda da noiva

Era dia de casamento. Não me lembro de quem. Podia ter sido de uma tia, uma vizinha ou mesmo de alguém que a gente nem conhecia. A expectativa era a mesma. Os noivos sempre convidavam os que se encontravam presentes na igreja para festejarem com eles. É claro que íamos todos.

Geralmente, o pastelzinho era frio e gorduroso, as empadinhas sem recheio, o bolo… Ah, o bolo… Igualmente sem grandes atrativos. Mas, afinal, o que fazia com que eu e meus primos tivéssemos tantas expectativas em dias de casamento?

Naquele tempo, as ruas eram de terra e raras as que tinham calçamento de paralelepípedos. Assim, se sol fazia, era poeira para tudo quanto é lado. Se chovia, lama não faltava. As noivas, para chegarem à igreja, faziam um longo trajeto, tortuoso, e, por vezes, a pé, sempre fugindo da poeira ou se desviando da lameira.Seus vestidos longos, com véus que, por vezes, iam do altar até o meio da nave da igreja, obrigavam que as damas-de-honra segurassem, cada qual em uma ponta, a extremidade dos véus. Assim, o longo rabo da noiva não encostava no chão. A expectativa, minha e de meus primos, era se as damas-de-honra realmente honrariam sua obrigação de não sujar o vestido da noiva.

As noivas ficavam geralmente com seus longos véus – o rabo da noiva – limpos, algo parecido com os rabos dos dinossauros, que, tampouco ao andarem, os apoiavam no chão. Na paleontologia, há uma área de conhecimento chamada icnologia, na qual são estudadas as atividades de organismos que ficaram preservadas nas rochas, como as fezes, pistas e pegadas. Em áreas ricas em pegadas fósseis, como Sousa (estado da Paraíba) e Araraquara (estado de São Paulo), apesar das centenas e centenas de pegadas e pistas fósseis, são raríssimas as marcas de arraste da cauda de dinossauros. Mas por que isso ocorre?

Essa antiga ilustração do T. rex mostra o réptil pré-histórico quase arrastando a cauda no chão. Hoje, no entanto, sabe-se que os dinossauros, ao andarem, não apoiavam seu rabo no solo (imagem: Charles R. Knight).

Os dinossauros foram répteis ágeis, em especial os carnívoros. Basta observarmos uma galinha correndo para termos uma ideia de como se movimentavam. A cabeça voltada em direção ao solo e sua coluna vertebral paralela ao chão eram auxiliadas por sua cauda na tarefa de equilibrar o corpo enquanto corriam. Desta forma, o registro de marcas da cauda de dinossauros é extremamente raro e muito do que se conhece sobre seus rabos é o que ficou preservado como fósseis, ou seja, os ossos que se fossilizaram.

Os dinossauros foram répteis ágeis, em especial os carnívoros, como o T. rex. Sua cauda auxiliava na tarefa de equilibrar o corpo durante uma corrida (imagem: Lobstar28/Creative Commons).

Mas… E os rabos das noivas? O que restou deles? Como não encostavam no chão, ficavam limpinhos e serviam para outras noivas. Ou, então, já tinham destino certo: transformavam-se em mosquiteiros, protegendo os noivos e seus futuros filhotes da voracidade dos mosquitos. Insetos que, de certa forma, se assemelhavam, então, a vorazes dinossauros, que não deixavam rastros da cauda, mas picadas semelhantes a mordidas cheias de sangue. Tempos difíceis, mas cheios de atrativos!

Ismar de Souza Carvalho
Departamento de Geologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 11.02.2011

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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