O corcunda do Cerrado

Era uma bela manhã de quasímodo – o primeiro domingo depois da Páscoa – em 1467, quando um recém-nascido deformado foi abandonado depois da missa na catedral francesa de Notre Dame. O bebê logo atraiu a curiosidade de algumas pessoas, até que o jovem padre Claude Frollo o adotou.

Os anos passaram e o menino, batizado de Quasímodo, se tornou um jovem feio. Seu olho direito era tampado por uma imensa verruga, os dentes eram tortos e, entre os ombros, possuía uma corcunda. Foi criado em Notre Dame e quase não saía da catedral, onde se tornou o sineiro. Tão alto era o ribombar dos sinos que Quasímodo acabou ficando surdo.

Quasímodo, personagem central do livro O corcunda de Notre Dame, recebeu seu nome por ter sido encontrado no domingo de quasímodo, o primeiro após a Páscoa. Esse dia é assim chamado por sua missa começar com a expressão Quasi modo geniti infantes... (“Como recém-nascidos...”, em latim). (foto: Cena do filme O Corcunda de Notre-Dame, de 1923 / Wikipédia / Domínio Público)

Quasímodo, personagem central do livro O corcunda de Notre Dame, recebeu seu nome por ter sido encontrado no domingo de quasímodo, o primeiro após a Páscoa. Esse dia é assim chamado por sua missa começar com a expressão Quasi modo geniti infantes… (“Como recém-nascidos…”, em latim). (foto: Cena do filme O Corcunda de Notre-Dame, de 1923 / Wikipédia / Domínio Público)

Esse é o personagem principal de O corcunda de Notre Dame, um clássico da literatura francesa escrito por Victor Hugo e publicado pela primeira vez em 1831. A história de Quasímodo já virou filme, desenho animado, peça de teatro e até inspiração para o nome de novos animais, como os pequenos crustáceos da espécie Ephemeroporus quasimodo, descobertos pela bióloga brasileira Lourdes Elmoor-Loureiro.

Lourdes é especialista em um grupo de crustáceos chamado Cladocera (“chifres ramificados” em grego, nome dado porque suas antenas possuem dois ramos com muitas cerdas). As mais de 600 espécies conhecidas de cladóceros geralmente medem menos de um milímetro e vivem principalmente em rios e lagos.

Os jovens de <i>Ephemeroporus</i> possuem um poro na região da cabeça que desaparece na idade adulta. Por isso, o gênero recebeu esse nome que, numa mistura de grego e latim, significa “poro efêmero”. Na foto, um exemplar de cladócero-corcunda com menos de 0,4 milímetros. (foto: Lourdes Elmoor-Loureiro)

Os jovens de Ephemeroporus possuem um poro na região da cabeça que desaparece na idade adulta. Por isso, o gênero recebeu esse nome que, numa mistura de grego e latim, significa “poro efêmero”. Na foto, um exemplar de cladócero-corcunda com menos de 0,4 milímetros. (foto: Lourdes Elmoor-Loureiro)

Muitas dessas espécies possuem uma carapaça que envolve e protege todo o corpo. É aí que fica a principal característica que distingue o Ephemeroporus quasimodo do restante do grupo: sua carapaça possui uma quilha que lembra uma corcunda. Quilha, corcunda, Notre Dame, Quasímodo… Foi mais ou menos assim que a doutora Lourdes chegou ao nome da nova espécie!

Os cladóceros-corcunda vivem juntos de plantas aquáticas. Para capturá-los, os pesquisadores usam pequenas redes que são arrastadas entre as plantas. Depois, o material coletado é levado para estudo meticuloso no laboratório. (foto: Lourdes Elmoor-Loureiro)

Os cladóceros-corcunda vivem juntos de plantas aquáticas. Para capturá-los, os pesquisadores usam pequenas redes que são arrastadas entre as plantas. Depois, o material coletado é levado para estudo meticuloso no laboratório. (foto: Lourdes Elmoor-Loureiro)

Ephemeroporus quasimodo e os demais Cladocera são muito importantes para os ecossistemas aquáticos, pois servem de alimento para peixes e outros animais. Além disso, algumas espécies são consideradas bioindicadoras de qualidade ambiental, ou seja, sua presença em um local sugere que a água ali está livre de poluentes. Isso também acontece com o cladócero-corcunda, que até agora só foi encontrado em lagoas limpas no Cerrado brasileiro. Quem diria que um bichinho tão pequeno pode ser tão importante para nós?

Matéria publicada em 05.09.2014

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Henrique Caldeira Costa

Curioso desde criança, Henrique tem um interesse especial em pesquisar a história por trás dos nomes científicos dos animais, que partilha com a gente na coluna O nome dos bichos

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