Garrafas, cacos de vidro e um pedaço de minha vida

Se alguém da rua da Jaqueira tinha uma garrafa diferente, o destino certo era minha casa. Tudo começou com um frasco de remédio – era esverdeado, translúcido e tinha uma tampa redonda bastante grande. Sua cor e luminosidade eram impressionantes. Eu e meus amigos ficávamos extasiados e imóveis na observação de sua beleza.

Depois vieram os frascos de perfume, nos quais os aromas exalavam viagens longínquas a países imaginários. As texturas das superfícies, os formatos e seus tamanhos minúsculos tornavam-nos os objetos de desejo favorito.

Na coleção, as garrafas de minha vida. Frascos de remédios, perfumes, garrafas de leite e de refrigerante... Um multicolorido mundo de vidro! (Foto: Laura Fields / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0>CC BY-SA 2.0</a>)

Na coleção, as garrafas de minha vida. Frascos de remédios, perfumes, garrafas de leite e de refrigerante… Um multicolorido mundo de vidro! (Foto: Laura Fields / Flickr / CC BY-SA 2.0)

Então, algo mudou. Comecei a me interessar por tudo o que era de vidro e que em algum momento havia servido para armazenar líquidos e que possuía uma história. O passo seguinte foram as garrafas vazias de leite – leite em frascos de vidro é coisa de antigamente! –, refrigerante, suco, vinho, licor, azeitona, azeite, doces…

Para acomodar a coleção, meu pai preparou várias prateleiras, no quartinho do nosso quintal. Organizei todos os frascos lá: amarelos, verdes, azuis, vermelhos, roxos, caramelados, brancos, pretos, translúcidos, opacos. Grandes, médios, pequenos. Com textura ou lisos. Tampas de rolha, de vidro e de metal. Todos enfileirados e ordenados num batalhão de vidros coloridos.

Você sabe de que os vidros são feitos? Trata-se de um material composto de sílica e oxigênio, que tem sua origem no quartzo – o mineral mais comum encontrado na natureza. É resistente, inodoro, não é tóxico e mostra-se facilmente reciclável.

O quartzo não é importante apenas para a produção de vidro. Existe um grupo de seres microscópicos, os radiolários, que utilizam a sílica e o oxigênio para produzirem seu esqueleto.

Os radiolários, organismos microscópicos, constroem seu esqueleto com silício e oxigênio – mesma composição dos vidros. Suas formas incríveis contam-nos a história dos oceanos que existiram na Terra. (Fotos: Valesca Eilert)

Os radiolários, organismos microscópicos, constroem seu esqueleto com silício e oxigênio – mesma composição dos vidros. Suas formas incríveis contam-nos a história dos oceanos que existiram na Terra. (Fotos: Valesca Eilert)

Assim, os radiolários têm a mesma composição básica do vidro. Eles constroem esqueletos incríveis, resistentes e que podem se preservar como fósseis. Alguns se assemelham a garrafas, outros a cápsulas lunares, discos voadores, e o que mais sua imaginação – e acho também que a dos radiolários – deixar. São verdadeiras joias microscópicas.

Além de serem incrivelmente bonitos, eles podem ser usados para a descoberta de recursos minerais, como o petróleo, e para a interpretação dos antigos mares que existiram em nosso planeta. Soterrados nos sedimentos marinhos dos oceanos, resistem bravamente ao aumento de temperatura e pressão que ocorre no interior da Terra. Não se deformam e mantêm a estrutura original de seu esqueleto.

O passado da Terra é como os cacos de vidro. Eles remontam a tempos que não mais existem, mas resistem, como os fragmentos de nossa memória. (Foto: tara spalty / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0>CC BY-NC-ND 2.0</a>)

O passado da Terra é como os cacos de vidro. Eles remontam a tempos que não mais existem, mas resistem, como os fragmentos de nossa memória. (Foto: tara spalty / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

O mesmo, infelizmente, não posso dizer das minhas centenas garrafas de vidro. Atraído pelos frascos de perfume, um gambá, provavelmente tentando ficar mais cheiroso, encarregou-se de destruir minha coleção. Encontrei-a aos cacos, em pedaços multicoloridos e despedaçados, tal qual as memórias de uma história.

Matéria publicada em 16.01.2015

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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