Bruxas, dragões, lobisomens

Era noite de lua cheia. A claridade se espraiava pelo quintal com sombras ameaçadoras. Confesso: nunca gostei de noites assim. Nos pesadelos de meus oito anos, na lua cheia que o saci-pererê, a mula-sem-cabeça, as bruxas, o lobisomem e o dragão de São Jorge apareciam no céu. Mal me atrevia a olhar pela janela!

Nas noites de lua cheia, as sombras do saci, da mula-sem-cabeça ou do dragão de São Jorge assombram nossa imaginação (Foto: balaji shankar / Flickr / CC BY-NC 2.0)

Nas noites de lua cheia, as sombras do saci, da mula-sem-cabeça ou do dragão de São Jorge assombram nossa imaginação (Foto: balaji shankar / Flickr / CC BY-NC 2.0)

Naquela sexta-feira, treze de agosto, às nove da noite, minha mãe avisou: “Vá ao quintal soltar o cachorro e feche o portão”.

Tremi. Ir até o fundo do grande quintal, coberto por árvores e arbustos, era como passar num labirinto e lutar com os monstros de minha imaginação. Pé ante pé, cheguei até Rex, um cachorrão peludo, com algum ancestral nobre da dinastia dos vira-latas. Quanto mais tentava soltá-lo, mais me enrolava, na corrente, nos pés do cão e nas plantas próximas ao muro em que ele se encontrava.

Neste momento, uma leve brisa movimentou sombras e medos ancestrais. Desesperado, refugiei-me rapidamente. Mas o que poderia existir num céu claro de lua cheia? Que mistérios haveria naquela noite iluminada?

Se voltássemos aos momentos iniciais de formação da Terra, há quatro bilhões e quinhentos e quarenta milhões de anos, veríamos uma história inicial conturbada e bastante confusa. Impactos de grandes e pequenos corpos celestes, além de cometas, davam forma ao planeta então instável, inconstante e sem um futuro previsível.

A imagem é uma concepção artística de como seria o impacto do encontro entre dois corpos celestes em alta velocidade. Cientistas acreditam que, há 4,5 bilhões de anos, o choque de um pequeno planeta com a superfície da Terra deu origem à Lua. Incandescente, ela iluminava o céu como uma grande bola de fogo (Ilustração: NASA/JPL-Caltech)

A imagem é uma concepção artística de como seria o impacto do encontro entre dois corpos celestes em alta velocidade. Cientistas acreditam que, há 4,5 bilhões de anos, o choque de um pequeno planeta com a superfície da Terra deu origem à Lua. Incandescente, ela iluminava o céu como uma grande bola de fogo (Ilustração: NASA/JPL-Caltech)

Naquele momento não existia a Terra sólida, e as rochas se encontravam em estado de fusão. Nem mesmo a Lua existia! Nosso satélite natural só se formou 40 milhões de anos depois do início de formação da Terra, com o impacto de um pequeno planeta que lhe arrancou parte de suas rochas derretidas.

Em sua história inicial, a Lua era uma grande e incandescente bola de fogo, muito mais próxima da Terra, capaz de iluminar o céu com uma força maior que qualquer lua cheia atual. Meteoros e asteroides se chocavam contra ela e também contra nosso planeta por todos os lados. Que imensidão de tempo e de eventos catastróficos separam os dias de hoje desse momento inicial de formação da Terra!

Naquele treze de agosto de lua cheia, eu ainda não sabia nada sobre esse outro lado das histórias da Lua. Assim, aninhei-me junto com meu cachorrão Rex no fundo de sua casinha aguardando o saci, a mula-sem-cabeça, as bruxas, o lobisomem ou o dragão de São Jorge. Não apareceram. Provavelmente, por estarem, todos, distraídos com um pedacinho da história da Terra, iluminado no céu.

Matéria publicada em 12.07.2013

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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