A arte do inconsciente

São Paulo antigo - sombras, pintura de Aurora Cursino dos Santos.

Quando se pensa nos hospitais psiquiátricos, as pessoas logo imaginam lugares feios, tristes e com pacientes andando sem rumo pelos pátios. Mas nem todos os hospitais são assim, como mostra a exposição Imagens do Inconsciente, que faz parte da Mostra do Redescobrimento. Ela reúne pinturas e esculturas produzidas por pacientes internados em hospitais psiquiátricos como o Pedro II, no Rio de Janeiro. Em 1946, essa instituição criou um ateliê de arte como alternativa para o tratamento de seus pacientes. O resultado é a enorme coleção de obras artísticas que deu origem ao Museu de Imagens do Inconsciente. Em nenhum outro lugar do mundo existe algo parecido, e a exposição revela um movimento artístico próprio do povo brasileiro.

Nas primeiras décadas do século 20, não havia regras bem definidas para internar as pessoas em hospitais psiquiátricos. Muitas vezes, dependentes de bebidas alcóolicas ou aqueles que tinham hábitos estranhos (como caminhar pelas ruas durante a madrugada) eram considerados pessoas com problemas mentais e levados para os hospitais. O tratamento psiquiátrico era assustador: os médicos usavam aparelhos de eletrochoque e algemas, entre outros. Diante dessa terrível situação, e com o objetivo de melhorar o relacionamento entre os pacientes, a doutora Nise da Silveira propôs um tratamento alternativo. Ela montou no hospital oficinas de artesanato, música, modelagem, jardinagem e pintura.

No lugar de injeções, remédios e isolamento dos pacientes, a médica dava pincéis, tintas e telas para aqueles com talento para pintura. O resto ficava por conta da criatividade de cada um, já que eles eram na maioria pobres e nunca tiveram a oportunidade de estudar arte. Do ateliê, saíram nomes famosos como Arthur Bispo do Rosário, Emygdio de Barros e Carlos Pertuis, entre outros.
Ao percorrer a exposição, é fácil perceber, a partir das histórias de vida dos pacientes, que alguns deles foram vítimas de um traumático tratamento psiquiátrico. Se fosse nos dias atuais, talvez eles tivessem outro tipo de terapia. É difícil imaginar pessoas capazes de fazer trabalhos tão bonitos e expressivos internadas em hospitais. Um exemplo é Arthur Amora. Ele nunca teve a oportunidade de estudar arte, mas em suas obras, é visível o parentesco com o concretismo, movimento artístico surgido anos seguintes.

O reflexo divino
Quando criança, Carlos Pertuis gostava muito de estudar. Com a morte do pai, abandonou a escola e, para se sustentar, começou a trabalhar. Na manhã de um certo dia, raios de sol começaram a incidir sobre o espelho do seu quarto, deixando-o deslumbrado com o reflexo da luz. Carlos achou que estava tendo uma visão cósmica, que ele chamou de “O planetário de Deus”. Entusiasmado, levou sua família para ver a maravilhosa imagem no quarto. Todos começaram a achar que ele estava louco, e internaram-no no mesmo dia. Aos 29 anos, ele começou a freqüentar o ateliê do Inconsciente, onde passava todo o tempo. Resultado: realizou cerca de 21.500 trabalhos, entre desenhos, pinturas, modelagens, xilogravuras e escritos. Carlos Pertuis morreu em 1977, aos 67 anos.

Então por que eram eles os doentes? Afinal, quem determina o padrão de ser normal das pessoas? O que é considerado normal hoje é diferente do que era no passado, e será diferente no futuro. Tudo depende da sociedade, dos pensamentos e da época em que vivemos.

O artista do lixo

Arthur Bispo do Rosário é considerado um dos maiores artistas brasileiros do século 20. Com raro talento, ele se considerava um enviado de Deus na Terra, com a missão de salvar as pessoas. Trabalhava sozinho e catava lixo para conseguir material de trabalho, como bonecas velhas, óculos, cordões, embalagens plásticas e chinelos, entre outros. Ora ele gostava de fazer bordados, ora fazia acúmulos de objetos do dia-a-dia e, às vezes, pegava vassouras para fazer obras de arte. Ao lado, você vê uma das suas principais criações: O Manto de Apresentação.
Arthur desfiava seu próprio uniforme e usava os fios para costurar e bordar os seus trabalhos. Na exposição, há um grande painel com objetos feitos desses fios, como instrumentos musicais, brinquedos e utensílios domésticos, entre outros. Na Mostra do Redescobrimento, também estão expostos outras obras do artista como o Manto de Apresentação. Arthur Bispo do Rosário ficou internado por mais de 50 anos na Colônia Juliano Moreira, tendo morrido aos 78 anos.

Matéria publicada em 30.10.2000

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Cristina-Souto

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