Uma enciclopédia ambulante

Nascido em 30 de dezembro de 1898, filho único de uma rica família do Rio Grande do Norte, Cascudo — cujo nome foi uma homenagem a Luís, rei da França — teve uma infância de príncipe! Os pais, Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Anna da Câmara Cascudo, já haviam perdido outras duas crianças, e nada nesse mundo os faria afastar do menino.

Na água do primeiro banho a mãe despejou um cálice de vinho do Porto para o filho ter saúde e o pai mergulhou uma moeda para merecer fortuna. Seus padrinhos — veja só! — eram o governador e a primeira-dama da província.

Conta-se que Luís da Câmara Cascudo era uma criança de saúde frágil, com pulmões suspeitos. Nunca foi de correr, subir em árvores, brincar livremente. Era vidrado pelo cotidiano, pelas coisas simples, pelos costumes dos homens a sua volta.

Cédula lançada em homenagem a Câmara Cascudo no início dos anos 1990

Na juventude, não largava o monóculo, a polaina e uma bengala da Índia. Era elegante, muito disputado pelas moças de Natal. Um dia, tinha na lapela um raminho de violeta quando avistou uma jovem menina de vestidinho azul e longas meias brancas. Mais tarde, substituiu a violeta por uma dália, em homenagem à sua nova namorada, Dáhlia Freire.

Pelo gosto do pai seria médico. Até tentou, mas seu caminho não era aquele, queria mesmo era escrever. Coronel Cascudo montou, então, um jornal chamado A Imprensa e, com apenas 17 anos, o rapaz já era repórter. Ali, fazia o que mais gostava: ia às feiras, mercados e procissões para registrar as coisas da cidade e descrever tudo o que via.

Mais tarde optou também por estudar Direito. Com o diploma na mão, pôde dar início à carreira que tanto estimava, e pela qual gostava de ser conhecido: a de professor. Luís da Câmara Cascudo nunca deixou de estudar, e acabou se tornando uma enciclopédia ambulante.

Orgulhava-se de dizer que, em 50 anos de profissão, teve cerca de dois mil alunos, com os quais aprendera mais do que ensinara. O professor Cascudo preocupava-se em aproximar as disciplinas do dia-a-dia dos estudantes. Em sala, falava até de lobisomem, motivo pelo qual quase perdeu o cargo.

Câmara Cascudo na rede, em sua casa

Já com 68 anos, Luis se aposentou do cargo de professor para ter mais tempo para si. A saúde estava frágil e a audição, muito debilitada. Longe de desanimar, dizia que, como ele, os órgãos também tinham direito à aposentadoria. Em sua velhice, deliciou-se com os crepúsculos e os céus estrelados. Quando avistava a Estrela Dalva, acordava dona Dáhlia, sua mulher, em plena madrugada. E nunca abriu mão de ficar à vontade: sempre de sandália, pijama, e com os cabelos grisalhos todos despenteados.

Em 1986, Cascudo morreu em Natal, sua tão adorada cidade. O Brasil perdia um grande homem, que agora se transformava, ele próprio, em personagem da nossa história. Luis da Câmara Cascudo deixou uma valiosíssima herança, capaz de enriquecer não apenas seus familiares, mas até você, que não tem nenhum laço de sangue com o dito cujo! Viu só como seu trabalho valeu a pena?!

 

Matéria publicada em 03.02.2004

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Carolina Benjamin

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