Noiva a bordo

Véu, grinalda, música, pompa e circunstância. O casamento de Carolina Josefa Leopoldina, princesa de Habsburgo, realizado em 13 de maio de 1817 em Viena, na atual Áustria, tinha todos esses detalhes típicos das cerimônias de casamento tradicionais. Faltava um: o noivo! O futuro marido, Pedro, o príncipe de Bragança, estava do outro lado do oceano, a milhares de quilômetros de distância, no Brasil – futuro lar de Leopoldina, que a princesa só conheceria meses após a celebração.

D. Leopoldina

Leopoldina viveu um casamento – literalmente – de princesa! Porém, não conhecia seu noivo, e só foi encontrar com ele meses após a cerimônia.

Foi o um casamento por procuração, ou seja, uma cerimônia formal em que se firmou um contrato matrimonial, mas sem a presença do noivo, representado, na ocasião, pelo tio da noiva, o arquiduque Carlos. Naquela época, cruzar o oceano Atlântico significava ficar vários meses dentro de um navio. Como o casal viveria mesmo no Brasil, ora, mais fácil para Pedro evitar a viagem de ida e de volta…

Ele e Leopoldina se casaram antes mesmo de se conhecerem pessoalmente – só haviam visto os rostos um do outro em pinturas. Após a celebração, a noiva embarcou rumo à terra de seu novo marido. Um caso único na história da Europa!

Malas prontas

O embarque levou dias, porque toda a alimentação tinha de ser carregada. Uma comitiva de cerca de 700 pessoas viajou junto com Leopoldina: membros da tripulação, equipes da cozinha e das cabines, e, claro, as damas de companhia da princesa, além de diplomatas e seus secretários, médicos e outros profissionais de saúde.

D. Pedro

D. Pedro, o noivo, estava no Brasil e não foi à Europa para o casamento. Na cerimônia, foi representado por um tio da noiva.

Vacas, bezerros, porcos e galinhas foram carregados no navio, seguidos de caixas de legumes, barris de água, barris de vinho. Havia, ainda, duas bandas de música, que tocavam durante o jantar e em outras ocasiões para o entretenimento da princesa.

O apartamento de Leopoldina no navio era elegante, com paredes forradas de veludo vermelho, móveis entalhados e até um piano. Dom João VI, o rei Português, seu sogro, dera ordens ao embaixador Marquês de Marialva para garantir que sua nora encontrasse na embarcação um ambiente o mais agradável e luxuoso possível.

No dia da partida – 15 de agosto de 1817, às seis horas da manhã –, a frota de três grandes veleiros deixou o porto de Livorno, na Itália, rumo ao mar.

Tempestades e contratempos

Depois dos primeiros três dias de viagem, os navios enfrentaram uma violenta tempestade, e Leopoldina experimentou o seu primeiro enjoo. “O navio batia constantemente para baixo e para cima, mal conseguia-se ficar de pé, dores de cabeça e tonturas se abateram sobre mim, havia rostos pálidos por todos os lados”, escreveu ela em seu diário.

(ilustração: Mariana Massarani)

Durante a viagem, Leopoldina anotou em seu diário os acontecimentos do dia a dia e os sentimentos de expectativa para a chegada ao novo lar. (ilustração: Mariana Massarani)

A caminho da Ilha da Madeira (um território português situado no oceano Atlântico), mais uma tempestade, tão forte que quebrou um dos mastros do navio onde estava a princesa. A comitiva teve fazer uma parada na cidade de Funchal para reparar a embarcação, e só depois seguiu viagem.

Demorou muito, muito mesmo. Durante várias semanas, não havia nada para se ver além do mar. Leopoldina relatou: “Eu leio muito, dou voltas no convés, e tento evitar minhas duas damas de companhia. Pois de puro tédio, a Condessa Lazansky e a Condessa Künburg começaram com um jogo maldoso: falar mal de pessoas ausentes, contar estórias mentirosas. Isso é perigoso e eu não quero fazer parte desse passatempo maldoso.”

Em meados de outubro, após seis semanas de viagem no oceano, a frota foi surpreendida por uma nova tempestade, um temporal, e durante dias e noites os três navios foram sacudidos, até se perderem um do outro.

“Não se via nada além de montanhas de água. A tempestade uivava e rugia tão alto que não se podia ouvir a voz uns aos outros, nem falando alto. Todas as velas foram recolhidas, menos as velas de tempestade, para evitar expor o navio à força colossal do vento. Todos quase morremos de medo. Só as orações têm me ajudado a passar por esses dias e noites terríveis”, Leopoldina confidenciou ao seu diário.

(ilustração: Mariana Massarani)

Chegando ao Rio de Janeiro, a princesa ficou encantada com a beleza da cidade. (ilustração: Mariana Massarani)

Enfim, no Brasil!

Quando o tempo se acalmou, os navios se reencontraram novamente e prosseguiram a viagem para o Rio de Janeiro. Em 5 de novembro de 1817, chegaram ao seu destino! Foi uma experiência avassaladora para Leopoldina – as enseadas, as montanhas, o verde dos trópicos, o branco das casas. “O Rio de Janeiro! Eu não tinha ideia da beleza dessa cidade e dos seus arredores”, escreveu ela para sua irmã Maria Luísa.

A princesa continuou seu diário e contou como foi a chegada em seu novo lar. Quer dar uma espiada? Leia na CHC 256!

Matéria publicada em 06.05.2015

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Gloria-Kaiser

Historiadora e escritora, vive am Graz, na Áustria. Tem romances, contos e ensaios científicos publicados no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

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