Zé Meleca e o cajá

Sempre tive muitos amigos. Na escola, na igreja, no clube e nas vizinhanças de minha casa. Todos sempre foram grandes amigos. Não, não é verdade. Havia os grandes, outros ficavam mais na categoria de médios, e realmente tinha alguns que não eram assim tão parceiros.

O cajá, com seu caroço espinhento, era uma das nossas frutas favoritas. Mas só Zé Meleca conseguia mastigar a semente! (Foto: Marco Schmidt / Wikimedia Commons / CC-BY-SA 2.5)

O cajá, com seu caroço espinhento, era uma das nossas frutas favoritas. Mas só Zé Meleca conseguia mastigar a semente! (Foto: Marco Schmidt / Wikimedia Commons / CC-BY-SA 2.5)

Dos grandes amigos, Zé Meleca era o mais esquisito. Como seu próprio apelido já dizia, Zé era pura meleca. Começava pelo nariz, que escorria o tempo todo. Depois, quando comia, sujava a mão, o pé, o cabelo, a camisa e tudo o que se encontrava em um raio de 100 metros de distância. Porém, o que mais nos impressionava era sua capacidade de comer o caroço das frutas.

Podia ser maracujá, abacate ou araçá – ele traçava tudo em segundos. E o cajá? Duvido que você já tenha visto alguém comer o caroço espinhento do cajá! Mas Zé Meleca destroçava um em segundos.

Sempre que voltávamos juntos da escola, gostávamos de descobrir árvores com frutos perdidos pelos campos abertos. Mangueiras e jaqueiras não faltavam, mas faziam muita lambança. Goiabas, araçás, pitangas, sapotis e cambucás eram saboreados. Um rastro de sementes abandonadas indicava nosso caminho diário. Com exceção, é claro, daquelas de cajá, que eram trituradas pelos dentes de Zé Meleca.

As sementes dos frutos são uma maneira fácil de as plantas se reproduzirem e dispersarem, carregadas por pássaros, morcegos e outros animais (Foto: Luiz Barucke / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

As sementes dos frutos são uma maneira fácil de as plantas se reproduzirem e dispersarem, carregadas por pássaros, morcegos e outros animais (Foto: Luiz Barucke / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

Mas, afinal, qual a função das sementes dos frutos? As sementes são a maneira pela qual uma grande parte das plantas consegue se dispersar. Elas também possuem nutrientes necessários para o início do desenvolvimento de uma nova planta.

As plantas que possuem sementes são conhecidas como espermatófitas e estão entre os mais importantes organismos existentes na Terra. Atualmente, uma grande parte da vida nos continentes depende da existência deste tipo de vegetal.

Algumas espécies são grandes árvores sem flores, como pinheiros e araucárias. Outras têm flores e podem possuir sementes minúsculas, como as encontradas na grama – isso indica uma longa história de evolução.

Os fósseis mais antigos de plantas com sementes têm 360 milhões de anos e são conhecidos como liginopteridas. Somente mais tarde, a partir do período Carbonífero – há 300 milhões de anos –, é que as sementes se tornaram mais comuns. Porém, foram necessários mais 200 milhões de anos para que surgissem as plantas com flores, nas quais as sementes são tão frequentes.

Fóssil de <i>Sphenopteris</i>, uma das plantas com sementes mais antigas que se conhece (Foto: Wikimedia Commons / Ghedoghedo / CC BY-SA 3.0)

Fóssil de Sphenopteris, uma das plantas com sementes mais antigas que se conhece (Foto: Wikimedia Commons / Ghedoghedo / CC BY-SA 3.0)

As sementes, desde as pequeninas, como as da grama, até as gigantes como as da palmeira coco-do-mar, foram uma excelente forma de as plantas terrestres persistirem por milhões e milhões de anos na Terra.

As sementes têm uma grande chance de se transformarem em fósseis. Sua parte externa, dura e resistente, consegue muitas vezes se mineralizar e, assim, preservar-se por milhões de anos (Foto: Wikimedia Commons / Verisimilus / CC BY 3.0)

As sementes têm uma grande chance de se transformarem em fósseis. Sua parte externa, dura e resistente, consegue muitas vezes se mineralizar e, assim, preservar-se por milhões de anos (Foto: Wikimedia Commons / Verisimilus / CC BY 3.0)

Como nada existe para sempre, algumas dessas sementes estão apenas no registro geológico, preservadas como fósseis nas rochas. Outras ficaram em minha memória, como aquelas das quais sinto saudades, e que me guiaram por tanto tempo nos caminhos de volta pra casa.

Matéria publicada em 08.11.2013

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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