Sou mineiro, uai!

Minas Gerais é assim: na roça ou na cidade, homem ou mulher, adulto ou criança, todo mundo fala “uai”. Essa palavrinha com três vogais é usada pelos mineiros nas mais diversas situações: para expressar dúvida, espanto, surpresa e praticamente qualquer outro sentimento.

Dizem que Minas Gerais é a terra do pão de queijo e do uai. “Aceita um pão de queijo com café?”, perguntou Dona Maria. “Uai, sô, aceito sim, obrigado!”, respondeu Seu Joaquim (Foto: Luciano Closs / Flickr / CC BY-NC-SA 2.0)

Dizem que Minas Gerais é a terra do pão de queijo e do uai. “Aceita um pão de queijo com café?”, perguntou Dona Maria. “Uai, sô, aceito sim, obrigado!”, respondeu Seu Joaquim (Foto: Luciano Closs / Flickr / CC BY-NC-SA 2.0)

A origem do “uai” é misteriosa e cheia de histórias. Uma delas diz que essa era uma senha usada pelos inconfidentes no século 18, significando “União, Amor e Independência”. Mas há quem diga que, na verdade, o “uai” surgiu em regiões onde ingleses trabalhavam na mineração. Na língua deles, “por quê?” se diz “why?”, cuja pronúncia é “uai?”. De tanto ouvir os gringos, mas sem entender o que eles diziam, o povo passou a imitá-los. Uai, será?

Há ainda outros contos sobre a origem dessa palavra tão típica de Minas Gerais, mas ninguém sabe qual é a versão correta. É um caso complicado, sô!

De tão popular entre os mineiros, a expressão foi parar até em nomes científicos. Alguns pesquisadores usaram “uai” na hora de nomear novas espécies – todas elas, é claro, habitam alguma região de Minas Gerais.

Os opiliões da espécie <i>Iandumoema uai</i> são encontrados em uma única gruta, e estão ameaçados de extinção. Já as rãs da espécie <i>Hylodes uai</i> vivem em riachos no interior de florestas. As matas também são habitat dos grilos da espécie <i>Laranda uai</i> (Fotos: De cima para baixo, autoria de Pedro Pereira Rizzato, Diego J. Santana e Neotropical Entomology [CC BY-NC 3.0])

Os opiliões da espécie Iandumoema uai são encontrados em uma única gruta, e estão ameaçados de extinção. Já as rãs da espécie Hylodes uai vivem em riachos no interior de florestas. As matas também são habitat dos grilos da espécie Laranda uai (Fotos: De cima para baixo, autoria de Pedro Pereira Rizzato, Diego J. Santana e Neotropical Entomology [CC BY-NC 3.0])

Para começar, temos Iandumoema uai, uma espécie de opilião que só existe em uma gruta do município de Itacarambi. Iandumoema é uma palavra de origem tupi, que quer dizer “falsa aranha”, com quem os opiliões são geralmente confundidos.

Uma espécie de rã com apenas três centímetros, descoberta no Parque das Mangabeiras, em Belo Horizonte, também ganhou um nome bem mineiro: Hylodes uai. O nome do gênero, Hylodes, pode ser traduzido como “parecido com uma perereca”, em grego.

Já os grilos da espécie Laranda uai vivem em fragmentos de Mata Atlântica no município de Viçosa. Seu nome parece ter origem em uma personagem da mitologia romana, a ninfa conhecida como Laranda ou Larunda.

No rio das Velhas, um afluente do rio São Francisco, encontramos o curioso Phalloceros uai. Enquanto machos e fêmeas da maioria das espécies de peixes liberam espermatozoides e óvulos na água, os Phalloceros são diferentes. Os machos introduzem na fêmea uma estrutura chamada gonopódio, para fecundar seus óvulos dentro do corpo. Depois da gestação, a mamãe dá à luz peixinhos já formados. Essa característica deu origem ao nome Phalloceros, quer pode ser traduzido como “pênis com chifres” em grego, pois o gonopódio é uma nadadeira modificada em um tipo de pênis, com pequenos ganchos em sua extremidade.

Para terminar, temos o Hyphessobrycon uaiso, um peixinho do rio Uberaba, no triângulo mineiro, apresentado pelos cientistas em 2013. Hyphessobrycon significa “pequeno Brycon” em grego. Brycon (que quer dizer “mordedor”) é o nome de um grupo de peixes maiores, tais como a piracanjuba e o matrinxã, muito apreciados na culinária. Já uaiso é uma referência a “uai, sô!”, outra expressão comum dos mineiros.

Peixes mineirinhos: <i>Phalloceros uai</i> (imagem superior, de um macho conservado para pesquisas) atinge cerca de três centímetros, enquanto <i>Hyphessobrycon uaiso </i> (imagem inferior) mede em média quatro centímetros (Fotos: Paulo Henrique F. Lucinda / Neotropical Ichthyology [superior] e Laboratório de Ictiologia do IBILCE/UNESP [inferior])

Peixes mineirinhos: Phalloceros uai (imagem superior, de um macho conservado para pesquisas) atinge cerca de três centímetros, enquanto Hyphessobrycon uaiso (imagem inferior) mede em média quatro centímetros (Fotos: Paulo Henrique F. Lucinda / Neotropical Ichthyology [superior] e Laboratório de Ictiologia do IBILCE/UNESP [inferior])

Onde você mora, existe alguma palavra ou expressão que todo mundo fala? Então, que tal brincar de usá-la no nome das espécies que mostrei acima, no lugar do uai e uaiso? Acho que vai ser interessante, uai!

Matéria publicada em 06.12.2013

COMENTÁRIOS

  • Salomão

    Muito interessante, obrigado pelo artigo, que nos informa além da existência das espécies como também a importância de preservar a natureza pois são espécies endémicas e algumas de regiões bem pequenas.

    Publicado em 29 de junho de 2020 Responder

  • Osmarilton

    Boa tarde!
    Desconfio que está palavra veio no tempo da inquisição, trazendo o nome do criador Yauh porém como no hebraico se lê de trás para frente então a palavra UAI surgiu .

    Publicado em 10 de agosto de 2020 Responder

  • VALERIA

    Sou de Montes Claros, norte de Minas Gerais. Aqui se fala muito moss, o que significa moço. Dependendo da tonalidade com como se fala Moss ( mais arrastado, assustado, repetido, cantado e etc) tem um sentido. Moss pode ser usado tanto para o feminino quanto o masculino.

    Publicado em 13 de agosto de 2020 Responder

  • Cid Lemar

    Uai, este não é jeito cerrrto de pronunciar os nomes dos trens???

    Publicado em 6 de fevereiro de 2021 Responder

  • Helder

    Sou do vale do aço. Estudei turismo.
    Uai com certeza veio da repetição do inglês way.
    Mineiro sempre receptivo, acolhedor. Isso de brincadeira a moda pegou , uai.

    Publicado em 28 de março de 2021 Responder

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Henrique Caldeira Costa

Curioso desde criança, Henrique tem um interesse especial em pesquisar a história por trás dos nomes científicos dos animais, que partilha com a gente na coluna O nome dos bichos

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