Pedra no estômago

O Natal mal havia acabado e já nos preparávamos para o Ano Novo, sempre na casa de minha vovó Dedé. Festa e comida andavam de mãos dadas – uma boa festa não seria completa se não houvesse enorme comilança, ora! Os preparativos começavam dois dias antes: leitão pururuca, torresmos e farofa de ovos; um arroz maneiro, capeletes e espaguete caseiro… Porém, a sensação era o preparo do peru.

Na festa de Ano Novo, nossa tradição era, comer, comer... até a barriga crescer! (Foto: rickie22 / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

Na festa de Ano Novo, nossa tradição era, comer, comer… até a barriga crescer! (Foto: rickie22 / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

Inicialmente ele tinha de beber cachaça. Esquisito, não é? Mas era assim que o bicho era preparado. Criado com todo o carinho no quintal, na véspera da festa seu destino estava traçado. Juntava gente de tudo quanto é lado só para vê-lo embriagado. Que maldade! E, depois disso, o pobrezinho ia para a panela, completando a última etapa da comilança do Ano Novo.

Algo que me intrigava é que, toda vez que se abria a barriga de um peru, quase sempre ela estava cheia de pequenas pedras. Diziam que ele era guloso e tudo o que via pela frente engolia sem pestanejar. Uma coisa realmente estranha.

O que eu não sabia naquela época era que as pedras encontradas na moela e no estômago de aves e répteis, como os crocodilos, são engolidas por eles para auxiliar no trituramento dos alimentos. Estes animais engolem grãos inteiros e grandes pedaços de vegetais ou carne, mas não mastigam. As pedras, então, ajudam no trabalho da digestão. Outra utilidade, especificamente nos crocodilos, é que as pedras aumentam o peso do animal e ajudam-no a mergulhar, facilitando os movimentos dentro da água

As aves, por engolirem sementes e grãos muito duros, além de grandes pedaços de alimentos – como peixes inteiros –, também engolem pequenas pedras para auxiliar na trituração e digestão (Foto: David Parker / Flickr / <a href=http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/deed.pt>CC BY-SA 2.0</a>)

As aves, por engolirem sementes e grãos muito duros, além de grandes pedaços de alimentos – como peixes inteiros –, também engolem pequenas pedras para auxiliar na trituração e digestão (Foto: David Parker / Flickr / CC BY-SA 2.0)

Incrivelmente, algumas dessas pedras são encontradas preservadas em fósseis e recebem o nome de gastrólitos. Elas podem ter tamanhos e formas bastante variados, mas geralmente são pequenos pedaços de rochas, engolidos de maneira voluntária pelos animais.

Os jacarés engolem pedras para ajudar no mergulho no fundo dos rios e lagos (Foto: Rede Jovem Rural / Flickr / <a href=http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/>CC BY 2.0)</a> )

Os jacarés engolem pedras para ajudar no mergulho no fundo dos rios e lagos (Foto: Rede Jovem Rural / Flickr /
CC BY 2.0)

É raro encontramos o conteúdo do estômago em fósseis. Geralmente, quando o animal morre, as pequenas pedras do interior de seu corpo são espalhadas pelo sedimento que os soterra. Porém, paleontólogos já registraram casos – como os dos fósseis do crocodilo Baurusuchus salgadoensis, encontrados em São Paulo – nos quais há gastrólitos com mais de 80 milhões de anos.

Os gastrólitos são pedras encontradas na moela e no estômago de animais que não mastigam os alimentos. Veja como têm formas e tamanhos variados (Foto: Wilson44691 / Wikimedia Commons / <a href='http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.pt'>CC BY-SA 3.0</a>)

Os gastrólitos são pedras encontradas na moela e no estômago de animais que não mastigam os alimentos. Veja como têm formas e tamanhos variados (Foto: Wilson44691 / Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0)

Voltando às ceias de final de ano, vale lembrar que, como nós não engolimos pedras para auxiliar na digestão, a expressão “pedra no estômago” tem um significado completamente diferente para os humanos – aquela sensação desagradável de que comemos demais. Melhor comer alimentos saudáveis e com moderação!

Matéria publicada em 13.12.2013

COMENTÁRIOS

  • Jessica

    Gastrolitos tem algum valor financeiro ou não?

    Publicado em 30 de outubro de 2020 Responder

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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