Passado gelado

O inverno já havia se iniciado há algumas semanas e levantar cedo, naquele longínquo mês de julho, era um suplício. A garoa fina, o vento gelado e a névoa transformavam o início de cada dia num momento de desgosto coletivo. E, para piorar, as aulas começavam pontualmente às sete horas.

Achávamos que nada poderia se tornar pior do que já estava. Ledo engano. Naquela segunda – não sei, talvez fosse terça, quarta, quinta ou sexta-feira, já que eram todas igualmente sem sol – o dia amanheceu ainda mais frio. Eu e meu amigo Zé Pedro caminhávamos ligeiro, na expectativa de que o vento que nos castigava se cansasse de nos perseguir.

No inverno frio e nebuloso, uma surpresa inesperada: cristais de gelo, na forma de flocos de neve, enfeitavam árvores, casas e ruas. (foto: Filipe Varela / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0>CC BY-NC-SA 2.0</a>)

No inverno frio e nebuloso, uma surpresa inesperada: cristais de gelo, na forma de flocos de neve, enfeitavam árvores, casas e ruas. (foto: Filipe Varela / Flickr / CC BY-NC-SA 2.0)

Então, o inesperado aconteceu: flocos de neve caíam por todos os lados, deixando a paisagem com um branco de dar inveja a qualquer sabão em pó. E assim, por quase duas horas, a neve enfeitou casas, árvores e ruas, transformando nossas vidas. Durou pouco, mas, apesar do frio, foi muito bom!

Porém, imaginem se, em vez de algumas horas, a neve durasse dias, meses e anos consecutivos. Se o inverno jamais chegasse ao fim. Um frio tão intenso que tornasse impossível o degelo da neve acumulada no inverno. Assustador? Saiba que esse pesadelo branco já existiu em muitos momentos da história da Terra – são os chamados eventos glaciais.

Ao longo dos muitos milhões de existência de nosso planeta, ocorreram longos períodos em que houve um acúmulo excepcional de neve, transformada posteriormente em gelo. A água evaporava dos mares, rios e lagos e, em vez de se precipitar como chuva, caía como neve e progressivamente se acumulava nos continentes. Nos curtos verões, essa neve não se derretia totalmente, e o acúmulo de gelo originava grandes geleiras.

As geleiras se formam pelo contínuo acúmulo da neve, que não derrete durante o curto verão dos tempos glaciais. (foto: Danielle Pereira / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by/2.0>CC BY 2.0</a>)

As geleiras se formam pelo contínuo acúmulo da neve, que não derrete durante o curto verão dos tempos glaciais. (foto: Danielle Pereira / Flickr / CC BY 2.0)

Muitas glaciações têm registro no Brasil. Locais onde hoje não existem geleiras, como nos estados do Amazonas, Piauí, Sergipe, Minas Gerais e São Paulo, já tiveram grandes áreas cobertas por gelo. O frio era devastador e, tanto na terra como na água, várias formas de vida se extinguiam ou se transformavam para se adaptar a condições tão inóspitas.

Esses momentos de temperaturas baixas também são registrados nos fósseis, que muitas vezes revelam seres de pequeno tamanho e com uma diversidade bastante baixa.

Já tivemos eventos glaciais no Brasil. Há 240 milhões de anos, grandes geleiras recobriam o estado de São Paulo. O registro desta glaciação está preservado nas rochas conhecidas como varvitos e encontradas na cidade de Itu. (foto: <a href=http://sigep.cprm.gov.br/sitio062/sitio062.htm>Rocha-Campos, AC. 2000</a> / SIGEP)

Já tivemos eventos glaciais no Brasil. Há 240 milhões de anos, grandes geleiras recobriam o estado de São Paulo. O registro desta glaciação está preservado nas rochas conhecidas como varvitos e encontradas na cidade de Itu. (foto: Rocha-Campos, AC. 2000 / SIGEP)

Felizmente, nas glaciações do passado e no inverno branco da minha infância, nada como um dia após outro. Nos invernos do passado geológico da Terra, após as temperaturas congelantes das eras glaciais, o aquecimento e a melhoria das condições climáticas possibilitaram a proliferação e a diversificação de espécies animais e vegetais, além da ocupação de novos territórios. Tudo sempre em transformação – tal qual aquele dia sem sol, transformado em diversão pelos cristais de gelo que caíram na minha cidade.

Matéria publicada em 11.07.2014

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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