O coelho e os ovos fósseis

Outro dia, vendo o supermercado cheio de ovos de Páscoa, lembrei-me de como, na minha infância, o feriado era pretexto para nos deliciarmos com doces, bolos e chocolates de todos os tipos. Naquela longínqua manhã de domingo, o ritual de esconder os ovos de chocolate no quintal de minha vó Dedé se repetiria. Lá estávamos, eu, minha irmã, meus primos e primas, todos ansiosos para dar a largada na desesperada procura pelas guloseimas.

No domingo de Páscoa havia uma grande ansiedade. No quintal de minha avó Dedé estavam as guloseimas mais desejadas – os ovos coloridos de chocolate. (foto: RichardBH / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by/2.0>CC BY 2.0</a>)

No domingo de Páscoa havia uma grande ansiedade. No quintal de minha avó Dedé estavam as guloseimas mais desejadas – os ovos coloridos de chocolate. (foto: RichardBH / Flickr / CC BY 2.0)

Minha avó então avisou: “Este ano há também outro presente especial. Todos à caça!” Ninguém nem mais se preocupava com os chocolates. O desejo era procurar o presente especial. E lá ia a turba ensandecida, quebrando as samambaias, as avencas, os antúrios e o que mais houvesse pela frente. Foi então que pensei:

“Vó Dedé é esperta, não esconderia o presente especial em qualquer lugar”. Em vez de olhar para o chão, mirei a grande goiabeira do centro do quintal. Achei, achei! Lá estava ele, dependurado de cabeça para baixo. Um grande e colorido coelho de pelúcia com muitos e muitos chocolates.

Mas, afinal, que fim levou o coelho? Como os ovos fósseis, ele ficou escondido por muito e muito tempo. (foto: Steven Depolo / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by/2.0>CC BY 2.0</a>)

Mas, afinal, que fim levou o coelho? Como os ovos fósseis, ele ficou escondido por muito e muito tempo. (foto: Steven Depolo / Flickr / CC BY 2.0)

Subi na árvore e corri desesperadamente com a criançada atrás a gritar: “Também quero, também quero”. Ninguém me alcançou e, para garantir meu presente, escondi o coelho e seus deliciosos ovos. Escondi-os tão bem, que não conseguia depois encontrá-los. Meus primos, revoltados, gritavam: “Povo, povo, povo… Foi o coelho, quem comeu o ovo!”

Assim, o coelho e os chocolates se perderam. Como os ovos de animais pré-históricos, que ficam desaparecidos por um longo tempo, antes de serem descobertos pelos paleontólogos.

Há vários tipos de ovos de dinossauros – os tamanhos e as formas são muito variados. Estudar em detalhe suas cascas ajuda na identificação do grupo de dinossauros que os originou. (foto: Ballista / Wikimedia Commons / <a href=http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.en>CC BY-SA 3.0</a>)

Há vários tipos de ovos de dinossauros – os tamanhos e as formas são muito variados. Estudar em detalhe suas cascas ajuda na identificação do grupo de dinossauros que os originou. (foto: Ballista / Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0)

Muitos animais põem ovos, mas, para que se preservem no registro geológico, é preciso que tenham a casca dura, geralmente formada por minúsculos cristais de um mineral chamado calcita.

Algumas vezes são descobertas ninhadas dos dinossauros. Os ovos cuidadosamente organizados nos demonstram um cuidado especial com sua futura prole. (foto: Sballal / Wikimedia Commons / <a href=http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.en>CC BY-SA 3.0</a>)

Algumas vezes são descobertas ninhadas dos dinossauros. Os ovos cuidadosamente organizados nos demonstram um cuidado especial com sua futura prole. (foto: Sballal / Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0)

A casca endurecida possibilita que a fossilização ocorra com mais facilidade, preservando, em alguns casos, até o embrião que se encontrava no interior do ovo. Os répteis e as aves são os animais mais comuns com este tipo de casca, e às vezes paleontólogos encontram seus ovos fossilizados.

Alguns dos ovos fósseis mais impressionantes são os dos dinossauros. Possuem tamanhos e formas bastante variadas, que indicam se foram postos por dinossauros herbívoros ou carnívoros.

Geralmente, os ovos estão isolados ou quebrados, mas há várias descobertas que mostram a forma de postura, em ninhos, nos quais eram cuidadosamente organizados.

O estudo desse tipo de fóssil é importante para compreender o comportamento de animais extintos, desde seu nascimento até sua idade adulta.

Fóssil de ovo de dinossauro com embrião preservado. (foto: Ryan Somma / Wikimedia Commons / <a href=http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0>CC BY-SA 2.0</a>)

Fóssil de ovo de dinossauro com embrião preservado. (foto: Ryan Somma / Wikimedia Commons / CC BY-SA 2.0)

Como nada fica desaparecido para sempre, encontrei, algumas décadas depois daquele domingo de Páscoa, meu coelho. Estava escondido no forro da casa de minha avó. Aprendi um pouco tarde que compartilhar nossas descobertas – assim como o conhecimento científico – é sempre o melhor caminho.

Matéria publicada em 13.03.2015

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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