Experimentar e inovar

Que aventura descer a ladeira num carrinho de rolimã! Nada como o ar frio da manhã e o desconhecido do final de uma curva (Ilustração: Emidio Batista Almeida Filho / Flickr / CC BY-NC-SA 2.0)

Que aventura descer a ladeira num carrinho de rolimã! Nada como o ar frio da manhã e o desconhecido do final de uma curva (Ilustração: Emidio Batista Almeida Filho / Flickr / CC BY-NC-SA 2.0)

Naquele sábado, o dia amanheceu nublado. Era uma daquelas manhãs de outono, em que parece que vai chover, mas, em seguida, o céu desponta iluminado por um tremendo sol. Como sempre, nos reuníamos em frente à casa de minha avó, onde uma suave ladeira abruptamente se transformava em um caminho com curvas para a direita, esquerda, direita, esquerda, num serpentear de fazer inveja a qualquer minhoca. E a emoção… Aaaaaaah, que emoção! Nunca sabíamos o que estaria à frente na próxima curva.

Munidos de nossos carrinhos de rolimã, a disputa por chegar mais rápido ao final da ladeira, que aos nossos olhos parecia um despenhadeiro, nos motivava a imaginar fórmulas de combustível jamais pensadas, para vencer tamanho desafio.

“Misture um quilo de açúcar com óleo de cozinha e um pouco de sal. Mexa bem, enterre por dois dias e que maravilha para a propulsão de seu motor”, dizia Manoelzinho. “Que nada… o melhor é esfregar mamona com cuspe. Seu carrinho ficará um foguete”, retrucava Neném.

Apesar de nossas ideias tão birutas, nossos carrinhos nem usavam combustível. Quer dizer, pensando bem, não é verdade. Utilizávamos o combustível da imaginação! Porém, por mais criativos que fôssemos, nem mesmo nossa imaginação era capaz de ser tão inovadora quanto a natureza. Quantos seres fantásticos se criam em nosso planeta…

Seres vivos estranhos viviam nos mares há 600 milhões de anos: <i>Dickinsonia</i> (1), <i>Pteridinium</i> (2), <i>Charniodiscus</i> (3), <i>Kimberella</i> (4) e tantos outros desapareceram para sempre, deixando-nos apenas seus fósseis (Fotos: Wikimedia Commons)

Seres vivos estranhos viviam nos mares há 600 milhões de anos: Dickinsonia (1), Pteridinium (2), Charniodiscus (3), Kimberella (4) e tantos outros desapareceram para sempre, deixando-nos apenas seus fósseis (Fotos: Wikimedia Commons)

Se voltarmos 630 milhões de anos atrás, num tempo chamado Ediacarano, uma enorme variedade de organismos, com formas e tamanhos bastante exóticos, habitava os mares rasos de vários locais do mundo. Alguns eram tão estranhos que não sabemos nem mesmo se foram animais ou plantas.

A criatividade e a inovação sempre fizeram parte da evolução dos seres vivos. Mesmo nos mais antigos, a experimentação já se mostrava presente. Havia organismos que nadavam, outros que se moviam sobre o fundo lamacento dos mares, ou mesmo aqueles que se enterravam. Todas essas eram tentativas de sobrevivência.

Nos tempos de Ediacara, a criatividade e a inovação se expressaram nas formas dos seres vivos. Um mundo novo, repleto de novidades (Ilustração: LBArscott / CC BY-NC-SA 3.0)

Nos tempos de Ediacara, a criatividade e a inovação se expressaram nas formas dos seres vivos. Um mundo novo, repleto de novidades (Ilustração: LBArscott / CC BY-NC-SA 3.0)

Como nas corridas com os carrinhos de rolimã, os seres vivos nunca sabem o que lhes aguarda na próxima curva. Por vezes, como em um grande tombo, a extinção. Em outros casos, o prêmio: sua proliferação.

Porém, sempre há fórmulas novas, jamais pensadas, que possibilitam vencer não apenas uma competição de carrinhos de rolimã, mas, também, o desafio de sobrevivência numa Terra em constante transformação.

Matéria publicada em 12.04.2013

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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