Em terra de cego…

Uma disputa acirrada. O campeonato de bolinha de gude prometia ser um evento jamais visto em nossa rua. Após a aula, no final da tarde, todos estavam a postos.  Neném, da rua da Jaqueira, disputaria com Zé Maria, da rua das Mangueiras, a grande final.

Meninos jogando bola de gude

Uma disputa de bola de gude entre garotos pode acabar em muita confusão... (Foto: Agência de Notícias do Acre / Flickr / CC BY 2.0)

A expectativa era grande, assim como o empurra-empurra para disputar o melhor trecho da rua de terra, em cuja arena de quatro longos passos estavam três buracos no chão. Após mais de meia hora de bolinha prá lá, bolinha prá cá, paft! Ocorreu a primeira e última grande jogada. Bolinha em cheio no segundo buraco.

Depois disso, tudo virou uma grande confusão. Petelecos e sopapos partiam de todos os lados. Não houve um garoto que, no dia seguinte, não tivesse um olho torto e inchado, nas cores roxo, vermelho, azul ou preto. Uma variedade de olhos comparável à que encontramos quando estudamos fósseis…

Olho de um trilobita

No transcorrer da evolução, existiram muitos tipos de olhos. Veja como são estranhos os olhos destes trilobitas, artrópodes que viveram nos mares há 400 milhões de anos (Imagem: Moussa Direct Ltd. / Wikimedia Commons)

É motivo de grande discussão entre os especialistas como teriam surgido os olhos nos seres vivos. Como os olhos dos invertebrados são diferentes daqueles presentes nos vertebrados, alguns pesquisadores acreditam que os olhos desses dois grandes grupos de animais evoluíram separadamente, apesar de ambos utilizarem o mesmo tipo de pigmento sensível à luz. Por outro lado, há cientistas que acreditam que a grande variedade de tipos de olhos existentes atualmente teve uma origem comum.

Mas como teria sido o olho mais primitivo que já existiu? Apenas um pequeno ponto sensível à luz, que, progressivamente, transformou-se e foi se tornando cada vez mais complexo.

Olho humano

Após 550 milhões de anos de sucessivas transformações, o olho humano é o mais complexo que existe (Foto: Robert D. Bruce / Flickr / CC BY-ND 2.0)

O surgimento do primeiro olho foi observado em fósseis com 550 milhões de anos, mas é claro que ele não possuía a forma e as habilidades de nossos olhos. Porém, no transcorrer de todo este tempo, pequenas mudanças, cada qual fornecendo vantagens para a sobrevivência – como, por exemplo, uma maior capacidade de escapar dos predadores –, tornaram o olho um órgão fundamental para todos os animais.

Se voltarmos no tempo e na evolução, encontraremos muitas variações desde o primeiro olho. Se, em terra de cego, quem tem olho é rei, imagine que alguns animais insatisfeitos com apenas dois olhos, podiam ter até cinco olhos! Era o caso da Opabinia, um invertebrado com 505 milhões de anos (veja aqui uma reconstrução de seu movimento). Não existia melhor estratégia para escapar dos predadores ou ser um grande caçador.

Opabinia (ilustração)

Opabinia, um artrópode com cinco olhos que existiu há 505 milhões de anos (Ilustração: Nobu Tamura / Wikimedia Commons)

Olhos compridos, em forma de tubos, arredondados, curvos, retos, grandes ou pequenos. Capazes de enxergar de perto ou de longe. Em uma cor só, ou em muitas cores. No decorrer da evolução, foram inúmeras suas variações de forma, tamanho e possibilidades.

Hoje, nossos olhos, que são os mais complexos e sofisticados que existem, trazem-nos as vantagens de poder olhar – um olhar que não significa apenas ver, mas também entender a história da vida em toda a sua diversidade e complexidade.

Matéria publicada em 11.05.2012

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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