Dinossauro banguela, pinhão na panela

A escavação já durava cinco dias. Das seis da manhã às seis da tarde trabalhávamos, quebrando e removendo as rochas, transformando-as em pilhas de entulho. Havia grande expectativa para a descoberta de um novo dinossauro. Mais dois dias se passaram e nada se encontrava. O cansaço e o desânimo já começavam a nos dominar, até que ao final do dia Carlota gritou: “Achei, achei! Venham ver!”

Escavação paleontológica

Realizar uma escavação paleontológica não é nada fácil. Por vezes trabalhamos tanto, e ao final nada encontramos (Foto: Ismar Carvalho)

Um alvoroço tomou conta do acampamento e mesmo quem realizava outras tarefas, como o preparo do jantar, correu para ver a descoberta. “Onde, onde está? O que foi encontrado? É um dinossauro?” Assim se espalhava o burburinho em torno de Carlota.

Dente de dinossauro

Dente de um dinossauro herbívoro. Pode parecer pouco quando comparado a um dinossauro completo, mas fósseis assim – mesmo que sejam apenas fragmentos – sempre têm uma história a nos contar (Foto: Rafael Lindoso)

“Encontrei um dente. Encontrei um dente!”

Mathias, com seu humor azedo como limão e amargo tal qual jiló, destilou: “Um dente… e quebrado. É como diz o ditado: de onde menos se espera é que não sai nada mesmo”.

Aproximei-me e observei que o dente quebrado era de um dinossauro herbívoro. Por que teria se quebrado? Certamente muitas seriam as possibilidades – a quebra do dente poderia ter acontecido até mesmo depois de sua morte. Mas, e se tivesse ocorrido em vida?

Geralmente, quando pensamos em dinossauros herbívoros, imaginamos que eles se alimentavam de folhas tenras e macias. Porém, muitos desses animais preferiam vegetais lenhosos, mais duros, como os brotos das araucárias e dos pinheiros, e até pinhões. Você já comeu?

Pinhão

Como são gostosos os pinhões! Os dinossauros também os tinham como alimento predileto. As sementes forneciam a energia necessária para caminharem longas distâncias e suportar as adversidades do ambiente em que viviam (Foto: Rodrigomorante / Wikimedia Commons / CC BY 3.0)

Os pinhões são as sementes das araucárias e dos pinheiros. Atualmente, os das araucárias são comuns no sul e sudeste do Brasil e, quando cozidos ou assados, são uma delícia. Porém, com sua casca tão dura, dão muito trabalho para retirar o interior macio e polpudo. Êpa! Não é que eu mesmo já tive um dente quebrado quando comia pinhão?

Para os dinossauros, mais que as folhas, os pinhões das araucárias eram uma fonte de energia e gordura. No tempo em que viveram, os pinhões eram abundantes nas grandes florestas de araucária que cobriam a Terra. Assim, com um alimento tão nutritivo, os enormes dinossauros conseguiam a energia necessária para percorrer longas distâncias e enfrentar as adversidades do mundo em que viviam.

Durante a era dos dinossauros, as araucárias eram árvores comuns em toda a Terra. Formavam grandes florestas que geravam os alimentos dos dinossauros herbívoros (Foto: Ismar Carvalho)

Durante a era dos dinossauros, as araucárias eram árvores comuns em toda a Terra. Formavam grandes florestas que geravam os alimentos dos dinossauros herbívoros (Foto: Ismar Carvalho)

Bem, voltando à escavação, nada mais foi encontrado. Apenas o dente quebrado de um grande dinossauro. Pode parecer desanimador, mas é bastante estimulante para os verdadeiros cientistas: agora sabemos que está enterrado, em algum lugar, um dinossauro banguela, aguardando que o resgatemos, com muita emoção, de seu passado distante, perdido em uma floresta repleta de pinhões.

Matéria publicada em 14.06.2013

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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