De escrava à senhora

Não faz muito tempo passou o dia 13 de maio, data em que, no ano de 1888, a escravatura foi abolida no Brasil. Como ocorre todos os anos, nesta época refletimos  sobre a escravidão de africanos e seus descendentes, um dos temas mais estudados entre os historiadores brasileiros.

De escrava à senhora: após conseguir sua liberdade, Chica da Silva teve mais de cem escravos ao longo de sua vida. Crédito: Carlos Julião/ Wikipédia

Quando falamos em escravidão, quase sempre nos vem à mente a figura de Chica da Silva, escrava que, libertada por seu senhor, com ele se casou e virou uma grande senhora da sociedade de Diamantina no século XVIII. De tão famosa, ela foi tema de filme, novela e até enredo da escola de samba carioca Salgueiro, que em um trecho dizia assim:

“E a mulata que era escrava / sentiu forte transformação, / trocando o gemido da senzala / pela fidalguia do salão.
Com a influência e o poder do seu amor, / que superou / a barreira da cor,
Francisca da Silva / do cativeiro zombou ô-ô-ô-ô-ô / ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô’.” (samba-enredo de 1963, composto por Noel Rosa de Oliveira e Anescar Rodrigues).

Mas como Chica da Silva foi transformada em um personagem histórico tão importante? Afinal, nenhuma mulher que tenha vivido no século XVIII no Brasil foi tão famosa quanto ela.

No começo, sua vida  nada tinha de diferente da de tantos outros escravos das minas. Nascida na senzala de uma pequena casa, no arraial do Milho Verde, perto de Diamantina (cujo nome na época era Tejuco), Chica era filha de Maria da Costa e de Antonio Caetano de Sá, sobre quem nada se sabe, a não ser que era um homem branco e capitão. Maria da Costa era africana, da Costa da Mina, de onde vinha a maior parte dos africanos trazidos para trabalhar nas Minas Gerais.

Maria da Costa chegou a Milho Verde por volta de 1720, trazida com outros escravos por Domingos da Costa, seu senhor. Domingos também era africano, também da Costa da Mina. Só que não era mais escravo. Tinha conseguido se libertar e, como todo mundo que tinha sido escravo e que depois conquistava sua liberdade, ele possuía seus próprios escravos. Maria da Costa não descansou até conseguir juntar dinheiro suficiente para comprar sua alforria, como se chamava a liberdade concedida ao escravo. Trabalhava até mais tarde, oferecia quitutes na rua, chegava até a vender comida para os escravos que trabalhavam nas minas, o que era proibido pelo governo local. Mas ela não media esforços. Um belo dia, contou e recontou suas economias, e viu que já conseguiria comprar sua liberdade. A situação era bastante esquisita: uma pessoa juntando dinheiro para comprar… a si própria! E foi o que ela fez.

Chica talvez tenha herdado a obstinação da mãe. Quando esta se alforriou, elas se mudaram para Diamantina, onde Chica passou a trabalhar na casa de Manuel Pires Sardinha, médico português. Depois foi vendida para João Fernandes, o homem mais poderoso da região, responsável pela extração de diamantes – e com quem ela viria a se casar.

Se a união de Chica da Silva com João Fernandes foi por amor, não dá para saber. Mas foi a sorte grande de sua vida: alforriada por ele, passou a assinar Dona Francisca da Silva de Oliveira quando nasceram os filhos do casal. E foi assim que, de escrava, Chica da Silva passou a liberta e a grande senhora: ela vivia do aluguel dos escravos que possuía. Foram mais de cem ao longo de sua vida.

Na época de Chica da Silva, no século XVIII, a escravidão era vista como algo normal pela maioria das pessoas que viviam naquela sociedade. Crédito: Livro "Para Conhecer Chica da Silva" - Keila Grinberg, Lucia Grinberg e Anita Correia Lima Almeida/ Divulgação.

Parece estranho que alguém que tenha sido escravo pudesse ter escravos, não é? E é, se pensarmos com a mentalidade de hoje em dia. Mas, naquela época, a escravidão era vista como algo normal pela maioria das pessoas que viviam naquela sociedade. E Chica da Silva era uma delas.

Ter passado de um extremo a outro da sociedade brasileira do século XVIII foi o que rendeu a Chica da Silva tanta notoriedade. Mas sua vida não pode ser confundida com um conto de fadas do Brasil colonial. Chica nasceu e morreu em um mundo cuja principal marca era a escravidão e, mais do que usar sua trajetória para mostrarmos como ela foi diferente das mulheres do seu tempo, importa percebermos como sua vida resume o absurdo e as complexidades da escravidão no Brasil: o fato de um ser humano poder ser dono de outro, mesmo que ele também tenha sido, um dia, escravo.

Capa do livro "Para Conhecer Chica da Silva" Divulgação.

Para você viajar por conta própria na máquina do tempo, leia os livros “Chica da Silva e o contratador de diamantes: o outro lado do mito”, de Junia Furtado (Companhia das Letras, 2003), o mais completo estudo já feito sobre ela, e “Para Conhecer Chica da Silva”, que escrevi em conjunto com Anita Correia Lima de Almeida e Lucia Grinberg (Jorge Zahar, 2005).

 

Matéria publicada em 29.06.2011

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Keila Grinberg

Quando criança, gostava de visitar a Biblioteca Nacional, colecionar jornais antigos e ouvir histórias da época de seus avós. Não deu outra: hoje é historiadora e escreve para a coluna Máquina do tempo.

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