As samambaias de minha avó

O quintal da casa de minha avó Dedé tinha algo de muito especial. Além das árvores frutíferas, que nos presenteavam durante todo o ano com goiabas, mangas, laranjas, frutas-de-conde e abacates, o que mais chamava a atenção era a variedade de folhagens que circundavam árvores, muros e até mesmo as frestas das pedras dos caminhos.

As samambaias são plantas de locais quentes e úmidos. No passado da Terra, já foram muito comuns e formaram florestas há 330 milhões de anos. Algumas samambaias pré-históricas eram como os samambaiaçus (à direita), que são verdadeiros gigantes do mundo das pteridófitas. Compare com o Mateus, que está a seu lado e que tem 1,80 metro! (foto: Ismar de Souza Carvalho)

As samambaias são plantas de locais quentes e úmidos. No passado da Terra, já foram muito comuns e formaram florestas há 330 milhões de anos. Algumas samambaias pré-históricas eram como os samambaiaçus (à direita), que são verdadeiros gigantes do mundo das pteridófitas. Compare com o Mateus, que está a seu lado e que tem 1,85 metro! (fotos: Ismar de Souza Carvalho)

As plantas rasteiras e que estavam por todos os lados eram samambaias de vários tipos, como a do Amazonas, chorona, de metro, americana, renda francesa, prata, chifre-de-veado, azul e paulistinha. Também lá estavam as avencas, como a cabelo-de-anjo e o avencão, que são delicadas e dificílimas de se cultivar. Essas plantas gostam especialmente dos lugares úmidos e bastante sombreados – o quintal de minha avó era um lar perfeito para elas.

Samambaias e avencas pertencem ao grupo das pteridófitas e têm uma longa história, que remonta a mais de 360 milhões de anos. Porém, foi no período geológico conhecido como Carbonífero, há 330 milhões de anos, que elas se diversificaram e passaram a ser bastante semelhantes com as que existem hoje.

Este é o tronco fóssil de uma samambaia gigante (<i>Psaronius brasiliensis</i>) com 270 milhões de anos que viveu no interior do Piauí. (foto: Antonio Carlos Sequeira Fernandes)

Este é o tronco fóssil de uma samambaia gigante (Psaronius brasiliensis) com 270 milhões de anos que viveu no interior do Piauí. (foto: Antonio Carlos Sequeira Fernandes)

Se, nos dias atuais, essas plantas são pequenas e têm distribuição geográfica limitada, no passado, dominaram as paisagens terrestres. Existiam em várias formas e tamanhos, algumas com troncos imponentes – como os ainda viventes samambaiaçus –, formando florestas de samambaias gigantes. Seus fósseis podem ser encontrados no interior do estado do Tocantins e também no Piauí, onde ocuparam extensas regiões 270 milhões de anos atrás.

Vejam que beleza esta folha de samambaia encontrada em rochas com mais de 100 milhões de anos, que se formaram no fundo de um lago no interior do Ceará. (foto: Ismar de Souza Carvalho)

Vejam que beleza esta folha de samambaia encontrada em rochas com mais de 100 milhões de anos, que se formaram no fundo de um lago no interior do Ceará. (foto: Ismar de Souza Carvalho)

No decorrer da história da Terra, todas as vezes em que o ambiente se tornava quente e úmido, havia a possibilidade de desenvolvimento destas plantas. Além do Carbonífero, outros momentos do passado de nosso planeta foram muito favoráveis à sua proliferação. Um exemplo foi o período Cretáceo, em que grandes folhagens de samambaias petrificaram-se nos sedimentos lamosos de lagos de águas quentes.

Algo especial que pairava no quintal de minha avó eram os múltiplos tons de verde que irradiavam de suas samambaias: muito escuro, pouco escuro, claro, translúcido, azulado, acinzentado e amarelado. Formavam um emaranhado de possibilidades em uma única cor, que me remetia à reflexão. Quando hoje encontro seus restos entranhados nas rochas de muitos milhões de anos, rememoro a tranquilidade dessas florestas perdidas no tempo e fossilizadas em cores verdes, tão bem presentes, no passado de minha imaginação.

Matéria publicada em 11.12.2015

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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