Armadas até os dentes

Vida selvagem é guerra constante pela sobrevivência. Dentes, garras, veneno, camuflagem, velocidade… Cada bicho tem suas armas para atacar e se defender. Quando o assunto é luta, as traíras estão bem preparadas até no nome. Segundo alguns estudiosos, traíra quer dizer “arranca pele” na língua indígena tupi.

<i>Hoplias malabaricus</i> (traíra-comum) foi a primeira espécie de traíra a receber um nome científico, em 1794. Agora, os cientistas sabem que pelo menos cinco espécies ainda sem nome vêm sendo erroneamente identificadas como sendo a traíra-comum. Isso quer dizer que, em breve, o número oficial de traíras brasileiras deve aumentar. (ilustração: Biodiversity Heritage Library / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by/2.0>CC BY 2.0</a>)

Hoplias malabaricus (traíra-comum) foi a primeira espécie de traíra a receber um nome científico, em 1794. Agora, os cientistas sabem que pelo menos cinco espécies ainda sem nome vêm sendo erroneamente identificadas como sendo a traíra-comum. Isso quer dizer que, em breve, o número oficial de traíras brasileiras deve aumentar. (ilustração: Biodiversity Heritage Library / Flickr / CC BY 2.0)

Não é para menos: esses peixes têm dentes afiados usados para segurar suas presas, que também garantem proteção contra inimigos. O arsenal das traíras inclui ainda uma cabeça com ossos bem duros, que as protegem como uma armadura e lhes renderam o nome científico Hoplias (“armado, encouraçado”, em grego).

As traíras são predadoras de espreita, que ficam paradinhas aguardando uma presa potencial cruzar seu caminho. Quando isso acontece, dão uma bocada, prendem a vítima com seus dentes e depois a engolem por inteiro!  (foto: Cláudio Dias Timm /  <a href=https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0>CC BY-NC-SA 2.0</a>)

As traíras são predadoras de espreita, que ficam paradinhas aguardando uma presa potencial cruzar seu caminho. Quando isso acontece, dão uma bocada, prendem a vítima com seus dentes e depois a engolem por inteiro! (foto: Cláudio Dias Timm /
CC BY-NC-SA 2.0)

As traíras vivem em rios e lagos da América Central e da América do Sul. No Brasil, há sete espécies nomeadas e pelos menos outras cinco já descobertas, aguardando um nome científico.

As traíras adultas medem geralmente entre 30 e 50 centímetros de comprimento. Algumas espécies, contudo, ficam maiores e são chamadas de trairões. É o caso da <i>Hoplias lacerdae</i>, nativa de rios do sul de São Paulo ao Uruguai, que chega a 75 centímetros de comprimento. Infelizmente, algumas pessoas soltaram indivíduos dessa espécie em regiões onde ela não ocorria naturalmente – uma atitude que pode causar sérios desequilíbrios ecológicos. (foto: Eduardo Godin)

As traíras adultas medem geralmente entre 30 e 50 centímetros de comprimento. Algumas espécies, contudo, ficam maiores e são chamadas de trairões. É o caso da Hoplias lacerdae, nativa de rios do sul de São Paulo ao Uruguai, que chega a 75 centímetros de comprimento. Infelizmente, algumas pessoas soltaram indivíduos dessa espécie em regiões onde ela não ocorria naturalmente – uma atitude que pode causar sérios desequilíbrios ecológicos. (foto: Eduardo Godin)

A espécie mais comum por aqui é Hoplias malabaricus, que pode ser encontrada em quase todo o país. Seu nome não tem nada a ver com malabarismo, mas com Malabar, uma região no sul da Índia. O ictiólogo – especialista em peixes – Marcus Elieser Bloch, que nomeou a espécie em 1794 com base em exemplares preservados em museus, acabou fazendo confusão e pensou que a espécie fosse indiana.

Pescadores profissionais do mundo todo visitam a Amazônia na tentativa de encontrar a maior espécie de traíra, o trairão-aimará. Na pesca esportiva, depois de capturar o peixe e fotografá-lo, o pescador o devolve à natureza. (foto: <a href=https://www.fishing-worldrecords.com>Fishing World Records</a> / CC-BY-NC 3.0)

Pescadores profissionais do mundo todo visitam a Amazônia na tentativa de encontrar a maior espécie de traíra, o trairão-aimará. Na pesca esportiva, depois de capturar o peixe e fotografá-lo, o pescador o devolve à natureza. (foto: Fishing World Records / CC-BY-NC 3.0)

Com a Hoplias brasiliensis a história é diferente. Seu nome específico avisa a todos – e corretamente – que seu lar é o Brasil. Essa espécie pode ser encontrada na Mata Atlântica da Bahia e no norte de Minas Gerais e do Espírito Santo. Na região sudeste também vive a Hoplias intermedius, que ganhou esse nome por possuir características intermediárias entre outras espécies de traíras.

O sul do Brasil é o habitat de mais duas espécies de traíras, Hoplias lacerdae e Hoplias australis. O nome da primeira é uma homenagem a João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional na época da descoberta dessa espécie por um cientista daquela instituição, Alípio de Miranda Ribeiro. Já Hoplias australis foi assim chamada por ocorrer no sul do país – australis significa “do sul”, em latim.

Já ao norte, a Amazônia também conta com algumas espécies. Seus rios são o lar de Hoplias curupira, que ganhou o nome de um personagem das lendas indígenas, protetor da natureza. Na selva amazônica também vive a maior de todas as espécies de traíra, Hoplias aimara –  “aimará” era o nome dado a esse peixe pelos indígenas da Guiana Francesa, onde a espécie foi descoberta por cientistas, no século 19. Enquanto a maioria das outras traíras não passa de 50 centímetros, os adultos de H. aimara podem medir mais de 1 metro de comprimento e pesar mais de 20 quilos! Não é à toa que os pescadores chamam esse peixe de trairão!

Matéria publicada em 04.09.2015

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Henrique Caldeira Costa

Curioso desde criança, Henrique tem um interesse especial em pesquisar a história por trás dos nomes científicos dos animais, que partilha com a gente na coluna O nome dos bichos

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