A língua do segredo

No intervalo das aulas, era um empurra-empurra sem igual. Na hora da merenda, corríamos em direção à cantina para chegarmos antes das meninas. Como forma de vingança, elas tagarelavam em uma língua desconhecida e que nos irritava profundamente.

“Ejoh asac me àl messap!”, dizia Mariazinha às suas amigas. E todos nós, meninos, de orelha-em-pé, tentávamos decifrar. Era a chamada língua do segredo. Um amontoado de vogais e consoantes que nos pareciam desconexas, mas sabíamos que significavam alguma coisa para as garotas. “Oãbob mu è miuqaoJ O”, balbuciava Terezinha – e vinha uma gargalhada geral.

As meninas tagarelavam na língua do segredo. Algo incompreensível para nós, meninos, que ficávamos morrendo de curiosidade! (Foto: theirhistory/ Flickr / CC BY-NC-SA 2.0)

O que significava, afinal, a língua do segredo? Como era possível as meninas se comunicarem, sem que percebêssemos o que falavam? A linguagem é sempre construída por um conjunto de palavras ou códigos que precisam ser conhecidos tanto por quem fala, quanto por quem as ouve. Assim, podemos inventar novas palavras, bastando que combinemos com outros o significado das mesmas.

Carl Linnaeus

Carl Linnaeus, botânico sueco que padronizou os nomes científicos das espécies de animais e plantas (Imagem: Wikimedia Commons)

Algo parecido ocorre com os nomes que são dados aos fósseis. Eles têm origem sempre no latim – uma língua antiga que se encontra na origem de muitos dos idiomas atuais, como português, espanhol, francês e italiano. Essa tradição começou há mais de 200 anos, quando, para facilitar a comunicação entre os cientistas, o botânico sueco Carl Linnaeus, propôs a nomeação em latim de todos os seres vivos, utilizando sempre dois termos – um nome e um sobrenome, por assim dizer.

Na paleontologia também utilizamos esse sistema, chamado de nomenclatura binominal, ou seja, com dois nomes. Assim, se temos o nome latinizado Amazonsaurus maranhensis, sabemos que se trata de um sáurio (dinossauro) da Amazônia maranhense. A comunicação entre os cientistas de diversos países se torna mais fácil, mas, para os que desconhecem o latim, pode parecer uma verdadeira língua do segredo!

Aliás, deixo registrado aqui que nós, meninos, após algum tempo, finalmente conseguimos decifrar a estranha língua falada pelas meninas: elas simplesmente falavam de trás para frente, invertendo palavras e frases.

Amazonsaurus maranhensis

Amazonsaurus maranhensis, um fóssil cujo nome significa “dinossauro da Amazônia maranhense” (Foto: Ismar Carvalho)

Nos estudos paleontológicos, fique você sabendo, também é necessário determinação para entender o que os fósseis podem nos contar. O sentido de seus nomes em latim é até simples, quando comparado com a dificuldade em se entender o significado da existência de alguns animais e plantas já extintos.

Matéria publicada em 09.11.2012

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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