A jaqueira, os fósseis em âmbar e a flor da laranjeira

Havia abacateiros, bananeiras, jabuticabeiras, goiabeiras, laranjeiras, pitangueiras e amoreiras. Seus frutos estavam por toda a minha rua. Já o cajá, o abil, a carambola, o sapoti, a fruta-de-conde e o caqui, bem mais raros, só nas casas das avós. Quanto às mangas… Ah! Como eram disputadas… Tinha a rosa, a espada, a coquinho… Huuumm, que delícia! E eu nem falei ainda das frutas só encontradas no mato, como o araçá, o coquinho-de-catarro e o maracujá… Quantos sabores, cheiros e texturas diferentes!

Mas, em meio a tantas árvores frutíferas, uma se destacava. Majestosa em suas décadas de existência, uma jaqueira solitária dominava a rua. Tão importante que a rua se chamava… rua da Jaqueira. Era lá que eu e meus amigos nos reuníamos durante horas e horas para aproveitar o que ela possuía de mais precioso. Não, não eram os frutos. Era a sombra e o “leite” que escorria de suas folhas e de seus galhos quando quebrados.

Com um pedaço de pau, batíamos esse “leite” até que ele virasse uma massa viscosa e pegajosa. Recobríamos, então, pequenas varas com essa goma natural e esperávamos no meio do mato que os passarinhos nelas pousassem. Seus pés ficavam aprisionados, e, impedidos de voar, os pegávamos com as mãos. Naquela época — em que não pensávamos em biodiversidade ou direito dos animais — , alguns acabavam fritos e outros, em gaiolas.

Certo dia, porém, nos esquecemos de verificar se havia passarinhos presos. Voltamos no dia seguinte e encontramos vários. Todos, porém, estavam mortos e recobertos de grandes formigas, que também terminaram aprisionadas no visgo da jaqueira. Foi uma desolação entre nós. Surgiu uma tristeza comum, pouco compreensível, mas que fez com que não mais caçássemos passarinhos.

Da mesma forma que a jaqueira, outras árvores, como o pinheiro, produzem gomas e resinas naturais. Ao terem um galho quebrado ou sofrerem o ataque de insetos, elas fabricam essas substâncias viscosas, que ajudam a evitar a ação de bactérias, a entrada de água ou de mais insetos em seu tronco, o que poderia acabar por matá-las.

À esquerda, a resina produzida pelo pinheiro. À direita, formigas presas nessa substância (fotos: OliBac e Paul Garland).

Como essas resinas são pegajosas e têm a capacidade de impedir a ação das bactérias, quando insetos ou outros pequenos animais entram em contato com elas, ficam aprisionados e morrem rapidamente, mas não apodrecem. Alguns ficam preservados de maneira tão excepcional que é possível encontrar, de forma intacta, os órgãos internos, os músculos e até mesmo partes delicadas do corpo, como os olhos.

E o que acontece quando essas resinas são soterradas por sedimentos? Elas sofrem várias modificações químicas, que as transformam em âmbar. Já ouviu falar nele? O âmbar é a resina fossilizada de antigas árvores que viveram há muitos milhões de anos.

Âmbares com 50 milhões de anos de Palminiken, região de Kaliningrado, Rússia. Repare, à direita, na aranha que ficou aprisionada nessa resina fóssil (foto: Ismar de Souza Carvalho).

Os melhores fósseis já descobertos e mais bem preservados são os existentes no interior do âmbar. Por meio do estudo dos animais e das plantas encontrados dentro dessas resinas, podemos conhecer o passado e o modo como se comportavam organismos que não mais existem. A reprodução, a caça a uma presa, o parasitismo e tantas outras relações de vida, que conhecemos nos ambientes atuais, podem ser observados em fósseis encontrados em âmbar. São insetos em acasalamento, flores, frutos, pequenos anfíbios, penas coloridas e inúmeros outros registros da vida que teriam grande dificuldade de se preservar se não fosse o ambiente criado pelas resinas.

Os organismos preservados no âmbar são como uma janela aberta para o passado, em que podemos observar a vida imóvel em seus momentos finais de existência, como se o tempo houvesse parado. Algo semelhante às nossas memórias de criança. Daquele tempo, sei que já não mais existem os passarinhos, a jaqueira ou mesmo os meus amigos. Porém, restou o gosto do araçá, da pitanga e o cheiro das laranjeiras floridas que enfeitavam o quintal de minha casa.

Matéria publicada em 12.11.2010

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Adorei conhecer este líquido!Coitadinho do passarinho!

    Publicado em 11 de maio de 2019 Responder

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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