A casa de Joaquim Maria

O famoso escritor Machado de Assis, quando era apenas Joaquim Maria – ou seja, uma criança como tantas outras –, devia respirar fundo antes de subir a ladeira que ia dar na capela do Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. A ladeira nem era das maiores, mas para ele – menino franzino – subir e descer o dia inteiro não devia ser nada fácil.

Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, onde provavelmente nasceu Machado de Assis (Foto: ABL)

Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, onde provavelmente nasceu Machado de Assis (Foto: ABL)

A capela não era grande, mas vista de longe talvez até fosse bonita. Dali era possível ver boa parte da Corte do Rio de Janeiro, a capital do Império do Brasil, com suas ruas estreitas e sujas. Adiante estava o mercado do Valongo, onde até os anos 1840 ainda desembarcavam escravos africanos. Mais ao longe, a baía de Guanabara, cercada por todas aquelas belezas naturais que tanto encantavam os viajantes.

Em meados do século 19, as terras do morro do Livramento eram ocupadas pela chácara – um tipo de residência com amplos jardins e pomares – de propriedade da família de D. Maria José de Mendonça Barroso Pereira. O terreno era extraordinariamente grande e, nele, duas construções se destacavam: a casa principal, na qual moravam os proprietários da chácara, e uma capela particular, para atender aos seus moradores.

Machado de Assis nasceu em família pobre e teve poucas oportunidades para estudar. Mesmo assim, tornou-se um dos maiores escritores brasileiros, autor de <i>Dom Casmurro</i> e <i>Memórias Póstumas de Brás Cubas</i>, entre outros livros (Foto: Fundação Biblioteca Nacional)

Machado de Assis nasceu em família pobre e teve poucas oportunidades para estudar. Mesmo assim, tornou-se um dos maiores escritores brasileiros, autor de Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, entre outros livros (Foto: Fundação Biblioteca Nacional)

Era esta capela que Machado de Assis frequentava em sua infância. Sabemos disso porque, no conto “Casa Velha”, é provável que as descrições feitas por Machado tenham sido da casa principal, com a sua grande varanda, os portões enormes, o caminho para a capela, as pessoas da vizinhança que vinham ouvir a missa aos domingos ou rezar a ladainha aos sábados, “em geral pobres, de todas as idades e cores”, descreve o autor.

Próximas à casa principal da chácara, havia outras moradias para os agregados, como os pais de Machado de Assis – uma costureira e um pintor de obras –, e para os próprios escravos de propriedade da família Barroso Pereira. Para Machado, aquela casa era “uma espécie de vila ou fazenda”, um “pequeno mundo” governado pela dona da casa.

Quem vai ao morro do Livramento hoje vê apenas vestígios de casas que talvez tenham pertencido à chácara de D. Maria José. De verdade, de verdade mesmo, ninguém sabe exatamente onde Machado de Assis nasceu. Quase nada do pequeno mundo de Machado de Assis está preservado atualmente. Não há sinais da capela, nem da casa grande. Descrevê-las é quase um exercício de imaginação. Que tal ler um de seus contos e tentar?

Para quem gosta do assunto, escrevi um livro sobre Machado de Assis junto com duas colegas, chamado Para conhecer Machado de Assis. Se você mora no Rio, aproveite e conheça também o morro do Livramento!

Matéria publicada em 01.04.2013

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Keila Grinberg

Quando criança, gostava de visitar a Biblioteca Nacional, colecionar jornais antigos e ouvir histórias da época de seus avós. Não deu outra: hoje é historiadora e escreve para a coluna Máquina do tempo.

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