A baía sente saudades

Em março deste ano, um grande grupo de golfinhos encalhou na praia de Arraial do Cabo, ao norte do Rio de Janeiro. Ajudados pelas pessoas que estavam lá, os animais rapidamente voltaram para o mar. O episódio teve final feliz, mas me lembrou de uma coisa triste: os golfinhos (ou botos, ou toninhas) já foram bem mais comuns no Rio de Janeiro!

Os golfinhos sempre estiveram presentes na costa fluminense. Porém, foram sumindo aos poucos por causa da pesca predatória e da poluição (Foto: Wikimedia Commons)

É claro que, apesar de caçados, ameaçados e tontos com a poluição da baía de Guanabara, os golfinhos nunca abandonaram totalmente esta que é uma das baías mais lindas do mundo, nem o litoral do estado do Rio de Janeiro. Hoje, existem cerca de setenta botos-cinza na baía de Guanabara, monitorados desde 1995 pelo Projeto Maqua, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Achou muito? Se você entrasse na máquina do tempo e voltasse 500 anos no passado, para o século 16, quando o francês Jean de Léry esteve no Brasil, acharia bem pouco. O viajante escreveu que, quando mar se agitava, às vésperas de tempestades, os golfinhos “surgiam repentinamente à tona d’água, mesmo à noite, e tornam o oceano quase verde”.  Mesmo quando o mar estava calmo, “reuniam-se não raro em tão grande número em torno de nós e até onde alcançava a vista” que “parecia o mar coalhado de golfinhos”.

Essa abundância de animais fazia com que os golfinhos fossem presas fáceis para os marinheiros. Na época, esses bichos faziam parte da dieta das pessoas que viviam no mar. É bem verdade que o próprio Jean de Léry, ao lembrar que, de uma só vez, apanharam vinte e cinco golfinhos (e ele não parecia estar contando história de pescador!), diz que a carne não era tão boa, “muito adocicada e pouco saborosa”.

Mas havia quem gostasse: os alemães Theodor von Leithold e Ludwig von Rango, que passaram pelo Rio de Janeiro mais de duzentos anos depois de Léry, em 1819, disseram que a carne “tem gosto parecido ao do salmão”. Os dois também mencionam que a pesca de golfinhos com arpão sustentou a tripulação do navio deles da Europa até o Brasil.

O brasão do Rio de Janeiro traz dois golfinhos, representando o caráter litorâneo da cidade (Imagem: Wikimedia Commons)

O golfinho podia até ser parte importante da alimentação dos marinheiros, mas tantos anos de pesca ninguém aguenta. Nem os golfinhos. Interessante que, no início do século 20, mais ou menos na mesma época em que os golfinhos passaram a figurar no brasão da cidade do Rio de Janeiro, eles passaram a ser ameaçados também pela poluição que, aos poucos, ocupou toda a baía.

Será que os golfinhos estão no brasão porque, naquela época ainda havia muitos deles no Rio de Janeiro ou porque alguém, já prevendo o futuro, queria preservá-los, se não no mar, ao menos na bandeira? Brincadeira: os golfinhos do brasão simbolizam a cidade marítima que o Rio de Janeiro era, e continua a ser. Mas, hoje, eles bem podem ser uma lembrança de que, um dia, nossos mares já foram repletos de golfinhos. Quem sabe, com a nossa ajuda, podem voltar a ser?

Matéria publicada em 25.05.2012

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Keila Grinberg

Quando criança, gostava de visitar a Biblioteca Nacional, colecionar jornais antigos e ouvir histórias da época de seus avós. Não deu outra: hoje é historiadora e escreve para a coluna Máquina do tempo.

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