Cinco perguntas para um cientista

O astrônomo Jaime Fernando Villas da Rocha é professor da Uerj

Aos 15 anos, ele queria ser astrônomo: estudar o universo e seus astros – os planetas, os cometas, as estrelas… Aos 18, porém, resolveu cursar história e filosofia. Mas, quando concluiu o curso, a paixão pelo espaço ainda estava presente e de uma forma renovada. Então, Jaime Fernando Villas da Rocha decidiu cursar… astronomia. Hoje, trabalhando na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ele estuda o processo de formação dos buracos negros, mas conversou com a CHC sobre um assunto tão curioso quanto o tema de suas pesquisas: a vida extraterrestre.

Hoje, o que os cientistas pensam sobre a presença de vida fora da Terra?

Em primeiro lugar, que a busca por vida fora da Terra é uma investigação conjunta de diversos campos do saber. Ou seja, envolve áreas como a biologia, a astrofísica, a cosmologia e muitas mais. [Biologia é o estudo dos seres vivos. Astrofísica, o estudo da constituição, das propriedades, da origem e da evolução dos astros. Já cosmologia, o estudo da estrutura, da origem e da evolução do universo como um todo.]

Por outro lado, como a única ocorrência de vida que conhecemos é a que existe no nosso planeta, acreditamos estarmos limitados a estabelecer nossos critérios sobre o que é vida com base no que encontramos na Terra. Além disso, quando falamos em vida extraterrestre, precisamos ter em mente a diferença entre vida simples, vida complexa, vida consciente, vida inteligente e civilizações tecnológicas. Não sabemos o quanto a vida simples (organismos formados por uma única célula, como as bactérias) é abundante no universo. Mas, mesmo que seja muito abundante, há limitações que restringem a chance de haver vida complexa (organismos formados por várias células) no espaço e, conseqüentemente, civilizações tecnológicas como a nossa, capazes de interferir e transformar o mundo que as cercam.

No passado, muita gente acreditava que Lua e Marte eram habitados. A ficção científica também tornou comum a idéia de que há vida fora da Terra. O que sabemos hoje sobre a existência de vida no Sistema Solar?

Hoje compreendemos que o Sistema Solar é algo que se modifica no tempo. Esta noção é chave para repensar a história da vida na Terra. Existem evidências de que a vida passou a existir na superfície de nosso planeta tão logo ele teve condições para tal. Mas há a hipótese de que a vida nasceu em um Marte menos inóspito à vida, com atmosfera e oceano (como ele pode ter sido no passado), e migrado para cá. A partir da colisão de algum cometa ou asteróide com a superfície marciana, algum fragmento poderia ter sido expelido dali e caído na Terra, trazendo vida simples para cá. Há ainda a hipótese de que organismos muito simples que vivem em condições extremas (ou em ambientes muito frios, ou muito quentes, ou sem luz etc) teriam dado origem à vida aqui na Terra e poderiam moldar o tipo de coisa a ser investigada fora daqui. Outras possibilidades tentadoras são dadas pelos grandes satélites rochosos dos planetas gasosos, como a possibilidade de Titã, satélite do planeta Saturno, ter, sob sua superfície de gelo, um acolhedor oceano. Mas não há nenhuma evidência indiscutível, até o momento, de existência de vida, ainda que simples, fora da Terra.

O desenho acima foi enviado ao espaço junto com uma sonda espacial, para tentar estabelecer contato com ETs.

Quais tipos de mensagem já foram enviadas ao espaço, na tentativa de fazer contato com extraterrestres?

Desde que passamos a usar aparelhos de radiodifusão, como televisores, rádios e telefones celulares, perdemos o controle sobre as informações que emitimos para o universo, uma vez que sons e imagens são transmitidos por esses equipamentos na forma de ondas eletromagnéticas, que chegam ao espaço. Porém, as sondas Pioneer 10 e 11, lançadas em 1972 e 1973, levaram ao espaço uma placa com o desenho de um homem e de uma mulher, fazendo um sinal amistoso indicado onde estavam localizados o Sistema Solar e a Terra.

Na busca por vida fora do planeta, quais outras iniciativas foram colocadas em prática, além do envio de mensagens?

O projeto SETI procura encontrar sinais ordenados em meio ao bombardeio de ondas eletromagnéticas que nos chegam de todos os lugares do universo, sinais ordenados o suficiente para que possam ser interpretados como produzido por civilizações tecnológicas como a nossa. Depois da descoberta de planetas fora do Sistema Solar, estamos tentando identificar planetas de nosso tamanho. Também investigamos os chamados traçadores de vida. A combinação de gases da atmosfera terrestre jamais poderia se manter como é hoje sem atividade biológica: sem a presença de plantas, de animais etc. Então, buscamos sinais da existência de vida por meio da presença de elementos ou combinações de elementos que só poderiam existir com atividade biológica.

Se o senhor tivesse de escolher um alienígena do cinema, da TV ou da literatura como o seu favorito, qual selecionaria? Por quê?

Particularmente, escolheria o livro e, principalmente, o filme Solaris , do cineasta russo Andrei Tarkovsky. Antes de mais nada porque, em ciência, devemos estar preparados para o inteiramente diverso e, tanto no filme quanto no livro, um planeta inteiro age coordenadamente como um ser vivo e também investiga a sua forma e os seres que a ele chegam, o que tem bastante a ver com o fato de estarmos abertos ao inteiramente diferente.

Matéria publicada em 22.02.2006

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    O senhor foi professor de astrobiologia da minha irmã mais velha na Unirio!

    Publicado em 21 de julho de 2018 Responder

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Mara Figueira

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