Caramujo africano: problema gigante

Observe bem a foto abaixo e responda à pergunta: você já viu esse animal pelas redondezas da sua casa? No pátio da escola? Grudado nos brinquedos da pracinha ou do clube?

Aí está o caramujo-gigante africano, a maior praga do Brasil. (Fotos: Fábio Faraco).

Esse é o Achatina fulica , também conhecido como caramujo-gigante africano. Um bicho que acabou ficando famoso por um motivo nada bom: é a espécie vinda de outro país que mais causa danos ao meio ambiente e à agricultura do Brasil, além de ser um possível transmissor de doenças aos seres humanos. “O animal está presente em pelo menos 25 dos 27 estados brasileiros”, conta Fábio Faraco, biólogo especialista em moluscos e analista do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama).

O Achatina fulica pode ser encontrado não só nas cidades, mas também em florestas, caatingas e brejos.

Tudo começou com o escargot , um molusco muito consumido em restaurantes caros. Há cerca de 20 anos, o Achatina fulica – espécie nativa africana – foi trazido, provavelmente da Indonésia, ao Brasil para servir como opção mais barata ao escargot , e muitos produtores começaram a criá-lo. Porém, quem consumia o escargot não passou a optar pelo outro molusco. Sem conseguir vender sua produção, as pessoas que criavam caramujo-gigante africano simplesmente começaram a jogá-lo no lixo, em terrenos baldios ou nos rios. Resultado: os depósitos de lixo ficaram infestados com o molusco, que também apareceu nas encostas dos rios e em locais próximos às cidades.

A partir daí, veja só, o caramujo-gigante africano espalhou-se rapidamente por todo o país. Não à toa: esse animal possui uma velocidade de reprodução incrível. Ele é capaz de colocar cerca de 600 ovos por ano, e, o pior, é assexuado. Ou seja: já que não tem sexo, todos os animais colocam ovos. Além disso, sua alimentação é muito variada, o que facilita ainda mais sua proliferação. Ele se alimenta de quase tudo: flores, folhas, frutos, hortaliças e até de papelão. “Já vi alguns roendo as camadas de tintas com cal em prédios e casas antigas. Isso acontece porque a concha desse molusco é formada por carbonato de cálcio, uma substância química presente nesse tipo de tinta, e que estimula seu crescimento”, conta Fábio.

Além de comer o que aparece pela frente, outra característica que possibilitou ao caramujo-gigante africano ocupar diferentes locais do Brasil é a sua resistência à seca e ao frio. Ele também não precisa de um ambiente específico para viver. Pode ser encontrado em locais de vegetação nativa, como florestas, caatingas e brejos, mas também em áreas cultivadas pelo ser humano, como hortas, pomares, quintais, jardins e até mesmo em terrenos baldios dentro das cidades.

Mas por que será que ninguém parece gostar muito do caramujo-gigante africano? Um dos motivos é o fato de ele se alimentar dos vegetais nas plantações, destruindo-as e causando prejuízos aos produtores. Outro problema é que a introdução de um animal num ecossistema ao qual ele não pertence sempre traz algumas conseqüências. A maior delas é a competição, nas cidades, desse caramujo com as espécies nativas. Nas áreas urbanas, há pouca oferta de alimentos e abrigo, o que torna a disputa mais intensa. “Com o Achatina fulica predominando, as populações de espécies nativas diminuem, correndo o risco até de serem extintas”, conta Fábio. “E a extinção de uma espécie é a pior coisa que pode acontecer ao ambiente”.

Se ligue nas listras marrons na concha do caramujo. Essa é a dica de que o molusco que você está vendo é mesmo um Achatina fulica , e não uma outra espécie qualquer.

Além disso, o caramujo-gigante africano pode ser portador de diversos parasitas. Embora aqui no Brasil nenhum caso ainda tenha sido relatado, dois vermes já foram encontrados no Achatina fulica : o Angiostrongylus costaricensis e o Angiostrongylus cantonensis . O primeiro causa a doença conhecida como angiostrongilíase abdominal, que provoca fortes dores no abdome, febre, perda do apetite, vômitos, entre outros sintomas, podendo até mesmo levar à morte. Já o outro verme causa a meningite eosinofílica, ao instalar-se no sistema nervoso central do paciente, inflamando as meninges – membrana que envolve o cérebro e a espinha –, o que pode levar à morte.

Por tudo isso, cabe o aviso: mantenha distância do caramujo-gigante africano. Não pegue o molusco ou sequer chute-o para longe. Mas faça bastante fofoca, falando para todos os seus amigos e familiares sobre os perigos desse invasor e o que fazer ao encontrá-lo (leia o boxe abaixo). Quem sabe assim não conseguimos livrar o Brasil desse indesejável caramujo?

O que fazer ao encontrar um Achatina fulica ?
Depois de conhecer melhor o Achatina fulica , com certeza você não irá querer tê-lo como vizinho. Caso você tenha visto alguns desses moluscos espalhados pelo seu bairro, algumas medidas podem ser valiosas no seu combate. Anote aí:
1) Tenha certeza de que o animal que você está vendo é realmente o Achatina fulica e não uma outra espécie de caramujo nativo. Olhe bem a foto acima e repare nos detalhes. As listras marrons são uma boa pista.
2) Peça para os seus pais avisarem a agência de vigilância sanitária de sua cidade ou, então, a prefeitura. Essas instituições são as mais indicadas para o controle dessa praga. Depois de identificar a contaminação, a agência de controle sanitário providenciará um depósito especial onde a população poderá jogar os caramujos fora com segurança.
3) Alerte seus pais: NUNCA se deve jogar o Achatina fulica no lixo. Afinal, se eles fizerem isso, a situação só tende a piorar, já que os lixões são cheios de alimento e abrigo para esse molusco se multiplicar ainda mais.
4) Somente em caso de emergência, segundo Fábio Faraco, é indicado que os ADULTOS tentem resolver a situação de infestação sem o apoio do poder público. Nesse caso é indispensável o uso de luva na manipulação dos animais. Caso se trate de um sítio ou fazenda, pode-se abrir um buraco fundo e jogar os moluscos lá dentro, para depois enterrá-los. Outra solução pode ser colocar os animais em sacos plásticos e jogar sal. Uma terceira opção é jogá-los em água fervente.
5) Mas ATENÇÃO: o mais importante é prevenir. Não deixe entulhos no seu quintal. Pedaços de madeira, lixo, pneus, móveis abandonados e ferro-velho servem de abrigo e alimento para os moluscos. E de nada adianta você limpar o seu jardim se o seu vizinho não fizer o mesmo. Mobilize a vizinhança para que todos se protejam dessa praga.

Matéria publicada em 16.06.2010

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Vou tomar muito cuidado quanto a esse assunto!!

    Publicado em 31 de março de 2019 Responder

  • ENILTO DA SILVA MORAIS

    Parabéns, ótimo informativo.

    Publicado em 4 de agosto de 2020 Responder

  • Rebeca Mariane

    Eu ja vi um desse caracol e nem sabia o que era

    Publicado em 18 de maio de 2021 Responder

    • Ana Julia

      É serio?

      Publicado em 16 de agosto de 2021 Responder

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Rosa Maria Mattos

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