Viemos ou não dos macacos?

Como muitas perguntas, esta do título tem uma resposta curta e outra mais comprida. A resposta curta é: não, a humanidade não descende dos chimpanzés. Ou seja: os macacos, apesar de serem nossos parentes, não nos deram origem. Mas você que gosta de boas explicações não quer respostas curtas, né? Então, vamos aos detalhes!

Ilustração Jaca

Antes de qualquer coisa, precisamos entender um pouquinho melhor como funciona a evolução biológica, saber como os diversos seres surgem na natureza, e esclarecer algumas ideias que, às vezes, ouvimos por aí. Primeiro, vamos combinar o seguinte: esquecer uma imagem muito comum de se ver quando alguém fala em evolução. Essa aqui…

Esta famosa ilustração, chamada “Marcha do Progresso”, transmitiu a ideia incorreta de que as espécies substituem umas às outras, de maneira linear. Ilustração Nato Gomes

Não foi de propósito, mas quem a criou fez parecer que, ao longo da evolução, a tendência é que os chimpanzés (bem à esquerda), aos poucos foram evoluindo e se tornando espécies cada vez mais parecidas com a humana, até chegar à nossa espécie: Homo sapiens (bem à direita). Essa imagem não explica como a evolução ocorre e acaba passando a mensagem errada de que o nosso último elo foi com um macaco.

 

Então, como a evolução acontece?

Na evolução, não necessariamente uma espécie substitui as “mais primitivas”. Para explicar de uma maneira bem simples, a ideia é a seguinte: vamos imaginar uma população de diversos organismos em que todos são parecidos entre si a ponto de se reproduzir e gerar filhotes, que, por sua vez, vão crescer e gerar seus próprios descendentes. Vamos chamá-los aqui de “os bolinhas roxas” e acompanhar a sequência de imagens a seguir:

MOMENTO 1: Bolinhas roxas = espécie A

MOMENTO 2

Cada vez que um par de bolinhas roxas se reproduz, ocorrem pequenas mutações, ou seja, pequenas mudanças nas características dos seus descendentes. Isso é natural e é um dos principais ingredientes da evolução. Então surge, entre os bolinhas roxas, um indivíduo azul.

MOMENTO 3

Surgem mais bolinhas azuis. Esses mutantes se proliferam na população original de bolinhas roxas. 

MOMENTO 4

Passado muito tempo, os bolinhas azuis formam uma população própria. São tão diferentes da população original (os bolinhas roxas), que são consideradas espécies diferentes. Bolinhas azuis = espécie B.

MOMENTO 5

A evolução da “espécie B” não significa que a “espécie A” deixou de existir. As duas podem seguir evoluindo em paralelo. Em outras palavras, são parentes entre si, mas são diferentes o suficiente a ponto de agora serem consideradas populações diferentes de espécies distintas: A e B.

Parentes para sempre

Em certo momento da evolução, algo muito parecido com este exemplo de bolinhas roxas e bolinhas azuis aconteceu com as diferentes espécies de hominídeos (que são a grande família que inclui os seres humanos e nossos parentes mais próximos, incluindo chimpanzés, gorilas, orangotangos e mais um monte de outras espécies extintas). Dos hominídeos viventes, os mais próximos da nossa espécie são os chimpanzés e os macacos bonobos (do gênero Pan). 

A separação evolutiva entre o ancestral comum dos humanos e dos chimpanzés se deu há cerca de 7 milhões de anos. Mas isso não significa nem que os humanos nem que os chimpanzés surgiram naquela época! E o que significa? 

Isso quer dizer que há 7 milhões de anos, uma população de hominídeos se separou em duas linhagens diferentes: uma que daria origem aos chimpanzés e outra que daria origem aos seres humanos. Os chimpanzés e bonobos, por exemplo, (Pan troglodytes e Pan paniscus, respectivamente) se diferenciaram de seus ancestrais há 930 mil anos, enquanto as primeiras populações de humanos (Homo sapiens) provavelmente se separaram de sua população ancestral há cerca de 300 mil anos. 

Entre o Homo sapiens e nosso ancestral comum com os chimpanzés, existiram várias outras espécies, incluindo algumas bastante conhecidas popularmente, como o Homo habilis, Homo erectus e Homo neanderthalensis. Cada uma dessas espécies conviveu com suas “espécies-irmãs”, e várias delas inclusive conviveram com a nossa própria espécie. 

 

Mas, afinal, de quem somos descendentes?

No fim das contas, uma resposta para a pergunta do título poderia ser algo como: não, não descendemos dos macacos, nem dos chimpanzés. Mas somos parentes próximos. Tão próximos que chegamos a ter até mesmo algumas características bem parecidas. Isso se reflete no próprio DNA: nós e os chimpanzés temos mais de 98% de nosso DNA idêntico! Isso porque herdamos esse DNA de nosso ancestral comum, há cerca de 7 milhões de anos, e nesse tempo todo ele mudou tão pouco, que ainda é fácil nos reconhecermos como parentes, apesar de não sermos mais membros da mesma espécie. 

Essa é talvez uma das maneiras mais interessantes de comparar humanos aos chimpanzés: não pelas de suas diferenças, mas por suas semelhanças. Esses nossos “primos”, afinal de contas, dividem conosco muitas das nossas melhores características: cooperação, inteligência, compaixão e carinho. E, como nós, seguem evoluindo a cada geração que passa.

Coleção de crânios de hominídeos em exposição no Centro de Apoio a Pesquisa Paleontológica, da Universidade Federal de Santa Maria. As linhas verticais indicam o tempo em que cada espécie esteve presente em nosso planeta. Quando essas barras ocorrem nas mesmas alturas, indicam que as diferentes espécies ocorreram no planeta ao mesmo tempo, podendo ter convivido umas com as outras. Foto cedida pelo autor
Jane Goodall é uma famosa primatóloga, especialista em primatas como os chimpanzés. Para a cientista, mais do que as diferenças, é importante reconhecer as características que humanos e outros primatas têm em comum.
Foto Michael Neugebauer/Flickr/Divulgação

Fala, irmão chimpanzé!

Humanos e chimpanzés têm não só semelhanças físicas, mas comportamentais. Como nós, os chimpanzés também demonstram afeto através de beijos e abraços. Dão até risada quando sentem cócegas! São capazes de formar grupos sociais e colaborar uns com os outros, e aprendem desde cedo a dividir as coisas com seus colegas – desde ferramentas e alimentos, até tarefas e carinho.

Flavio A. Pretto
Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica
Universidade Federal de Santa Maria

Matéria publicada em 22.12.2021

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