Um pouco da história do lixo

Restos de comida, papel, plástico, metal, vidro, xixi… Tudo isso (ou quase tudo e mais alguma coisa) compõe o lixo que descartamos todos os dias. Mas onde é que esse lixo todo vai parar? Essa preocupação não é de hoje! Duvida? Então, vamos voltar um pouquinho no tempo, dar um pulinho no Rio de Janeiro de, mais ou menos, 100 anos atrás…

Ilustração Walter Vasconcelos

Na sua casa ou apartamento, há uma lixeira, um depósito aonde você acumula o lixo até que ele seja recolhido, certo? Mas, e depois? Você sabe para onde vai o lixo? Nos dias de hoje, dar o melhor destino ao lixo ainda é um desafio e tanto. Agora, imagina antigamente! No tempo em que o Rio de Janeiro foi a capital do Brasil e muita gente foi morar lá, entre 1763 e 1961, o acúmulo de lixo e a sujeira na cidade eram tão impressionantes que acabaram registrados em ilustrações dos pintores viajantes Johan Moritz Rugendas (alemão, que viveu entre 1808 e 1858) e Jean-Baptiste Debret (francês, que viveu entre 1768 e 1848).

Na época, o sistema de coleta de lixo – esse dos caminhões que passam hoje pelas ruas – nem sonhava em existir. Sabe o que as pessoas faziam? Ou enterravam o lixo em seus quintais ou despejavam em terrenos baldios, nas ruas e nos rios. Existiam também os vazadouros, algo parecido com os lixões, muito deles (acredite!) nas praias!

 

Quem carrega o lixo?

Nesse lixo despejado pela cidade havia de tudo: entulho, corpos e carcaças de animais mortos, entre outras coisas fedorentas. Mas havia também um lixo especialmente nojento: barris com sobras de água suja, fezes e urina – sim, naquele tempo as casas não tinham esgoto e tudo isso seguia para os vazadouros.

Mas, espere um momento: quem carregava o lixo? Você sabe que a abolição da escravatura ocorreu apenas em 1888 e que por um longo período no Brasil tivemos pessoas escravizadas, certo? Pois os negros escravizados é que eram obrigados a carregar os barris de excrementos.

Escravo com barril de dejetos, Rio de Janeiro, século 19.
Obra O colar de ferro, castigo dos negros fugitivos,
Debret

Somente, a partir da proclamação da Independência do Brasil, em 1822, parte do transporte do lixo passou a ser feito por carroças do governo ou de particulares. Essas carroças eram puxadas por cavalos, bois ou por negros escravizados.

Em 1853, foi aprovadona Câmara Municipal um projeto de regulamentação de transporte de lixo para excluir definitivamente os escravos dessa função. O lixo, acomodado em barris fechados, passava a ser recolhido por carroças.

O recolhimento parecia mais organizado, mas o problema de “o que fazer com o lixo” continuava!

De onde vem o termo ‘gari’?

Em 1873, foi contratada pelo Ministério Imperial uma empresa particular para realizar os serviços de limpeza da cidade.Os funcionários da empresa que realizavam a limpeza passaram a ser chamados “gari”.A origem da palavra vem da referência ao dono da empresa, o francês Aleixo Gary.O contrato dessa empresa acabou em 1892 e em seu lugar foi criada a Superintendência de Limpeza Pública e Particular da Cidade.Em homenagem a esses trabalhadores – homens e mulheres – que fazem a coleta de lixo das casas, varrem e limpam as ruas da nossa cidade, é comemorado o Dia do Gari em 16 de maio.

Ilha de lixo

Você deve saber que o lixo atrai muitos animais transmissores de doenças, como os ratos. Tem também o problema de que, quando o lixo se decompõe, se dissolve, parte se transforma em um líquido chamado chorume. Esse líquido contamina o solo e a água.

Em 1865, numa tentativa de afastar da cidade o problema do lixo, foi criado o vazadouro (lixão) da Ilha de Sapucaia. Sim, uma ilha inteira se destinou a receber o lixo do Rio de Janeiro. Barcos recolhiam os resíduos depositados nas pontes de descarga espalhadas pela cidade e navegavam até a Ilha de Sapucaia, onde jogavam tudo.

Uma parte do lixo era queimada dentro de uma fornalha, e o restante ficava a céu aberto. A Ilha de Sapucaia permaneceu sendo o principal vazadouro de despejo do lixo da cidade até 1949. Hoje, ela não existe mais – foi interligada a outras ilhas, formando a Ilha do Fundão.

 

Muito lixo, pouca saúde

O século 19 foi marcado por grandes mudanças na cidade, especialmente no que dizia respeito à higiene pública. Nas escolas de medicina, os estudantes não se contentavam apenas em se formar para combater doenças e cuidar de seus pacientes, pensavam em soluções de saúde para evitar as doenças e para isso atuavam para além das paredes dos hospitais: o território a ser controlado era a cidade.

Com a descoberta, na segunda metade do século 19, de que as doenças poderiam ser transmitidas pelo ar, por meio de micróbios, a preocupação com o lixo aumentou. Os governantes decidiram seguir o que diziam os estudiosos e levaram a sério o problema do lixo.

Em 1892, a prefeitura passou a recolher e transportar o lixo, e se comprometeu a criar um complexo de incineração. O que é isso?!? Incinerar é queimar. Logo, o que a prefeitura fez foi contratar uma empresa para construir vários fornos. Eles tinham capacidade de incinerar 400 mil quilos de lixo por dia.

 

Lixo no forno

O Complexo de Incineração de Lixo Urbano, como foi chamado o conjunto de fornos da prefeitura, tinha a chaminé mais alta do Rio de Janeiro: com cerca de 75 metros de altura. Ele foi construído numa antiga fazenda, onde hoje fica o bairro de Manguinhos. Na época, o bairro era bem distante da parte da cidade onde havia maior concentração de pessoas.

Mas a cidade crescia e o grave problema da limpeza urbana permanecia. Na década de 1920, surgiram propostas de criação de novos fornos de incineração, com tecnologia mais moderna, para serem espalhados em outros pontos da cidade, no entanto não foram construídos.

Construção do Hospital Oswaldo Cruz, em Manguinhos (1912). Ao fundo, a chaminé dos fornos de incineração de lixo.
Foto J. Pinto/Acervo Casa de Oswaldo Cruz

Em 1922, os fornos de Manguinhos foram desativados, provavelmente porque a sua tecnologia ficou ultrapassada. O terreno onde funcionavam agora pertence à Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz – um dos principais centros de pesquisa em saúde do Brasil.

Em 2013, durante uma obra para construir uma nova unidade de pesquisa na Fiocruz, foram encontrados, por arqueólogos, ruínas de uma antiga chaminé do conjunto de fornos que ali funcionava. O terreno em que vestígios arqueológicos são descobertos é denominado sítio arqueológico, um local onde ficam preservados vestígios de um passado histórico.

Os vestígios da antiga chaminé do Complexo de Incineração de Lixo de Manguinhos foram preservados e poderão, em breve, ser visitados, ajudando a contar sobre a história da saúde nas cidades e a refletir sobre a cultura do descarte do lixo nos dias de hoje.

Inês El-Jaick Andrade
Departamento de Patrimônio Histórico
Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz

Éric Alves Gallo
Programa de Pós-graduação em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde,
Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz

Matéria publicada em 16.04.2019

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