Um casamento e uma expedição científica

A história do Brasil tem detalhes que dificilmente a gente aprende na escola, mas que são pra lá de curiosos! Imagine que o casamento da princesa da Áustria Leopoldina de Habsburgo com D. Pedro, herdeiro do trono no Brasil, em 1817, não foi bem por escolha dos noivos. Foi, na verdade, uma união de interesses entre os governantes dos dois países. Mas essa história tem também um outro lado: o casório motivou uma grande expedição científica. Em termos de descobertas, foi a mais importante da Europa no século 19.

Ilustração Bruna Assis Brasil

Leopoldina tinha 19 anos quando se casou. Mas não pense que foi um casamento igual aos que estamos acostumados. A noiva não se dirigiu ao altar para encontrar o noivo. Leopoldina estava na Áustria e Pedro, no Brasil. Foi um tio de Leopoldina  que, com um documento chamado procuração, representou o noivo na cerimônia que aconteceu em maio de 1817, em  Viena, a capital austríaca.

Pedro aguardava pela princesa no Rio de Janeiro, já sabendo que a moça era uma amante da natureza. Seu passatempo favorito era a exploração de minerais. Leopoldina tinha uma coleção de pedras vindas do Brasil, país que, depois de casada, passaria a ser a sua nova casa. Ela estava feliz com a mudança e também com o casamento. Quando lhe mostraram um retrato de Pedro, escreveu à sua irmã Marie-Louise, comparando o príncipe com o deus da beleza na mitologia grega: “O retrato ainda me deixa muito atordoada, ele é tão belo quanto Adonis!”.

 

Viajar e explorar

Muito animada, Leopoldina se preparou para o casamento e para a sua nova pátria: aprendeu português, estudou a história e a geografia do Brasil e também a história da família de seu marido. Ela sabia, ainda, que sua viagem de mudança era a oportunidade de organizar uma expedição científica. Seu pai, o imperador Francisco I da Áustria, apoiou a ideia, e assim teve inicio aquela que seria a mais importante expedição científica do século 19.

A chamada Missão Austríaca ou Expedição Austríaca ao Brasil contou com artistas e cientistas. Alguns dos principais integrantes foram: os botânicos Karl Friedrich Philipp von Martius, Johann Christian Mikan e Johann Emanuel Pohl (que também era médico e mineralogista); os zoólogos Johann Von Spix e Johann Natterer; e os pintores Johann Buchberger e Thomas Ender. Foi da princesa Leopoldina a sugestão de que Rochus Schüch, seu professor favorito, e que havia lhe ensinado mineralogia, também fosse incluído na expedição. Outro indicado da família imperial austríaca foi o botânico italiano Joseph Raddi.

Leopoldina

A viagem

Rochus Schüch, Joseph Raddi e Johann Baptist Emanuel Pohl viajaram na comitiva de Leopoldina para o Rio de Janeiro, mas não na mesma embarcação. Eles foram a bordo do navio de passageiros São Sebastião. Os demais integrantes da expedição haviam partido na frente, no mês de abril, nas fragatas imperiais Austria e Augusta. Mas, e a princesa?

A princesa saiu de Viena e foi para Livorno, na Itália, onde dois veleiros a aguardavam para a travessia do oceano Atlântico. Foi em 13 de agosto de 1817, após uma grande cerimonia de despedida, que Leopoldina, acompanhada de suas damas da corte, embarcou no navio-almirante D. João VI.

Pohl teve permissão para inspecionar as dependências da luxosa embarcação de Leopoldina, e escreveu: “Os apartamentos estão decorados com bom gosto e são providos de tapetes. Um piano encontra-se disponível para que a princesa possa tocar. No quarto há uma cama de mogno, tudo da melhor qualidade. Músicos estão de prontidão para tocar durante as refeições da princesa.”

Pohl também se interessou em fazer um relato da viagem pelo qual foi possível entender as experiências vividas pela pela princesa. Descreveu tanto as tempestades enfrentadas quanto as belezas contempladas. Seriam dele também alguns dos mais importantes relatos da expedição científica da Áustria no Brasil.

Finalmente, depois de 82 dias no mar, o Pão de Açúcar foi avistado pela tripulação e os navios entraram na Baía de Guanabara. A cidade estava toda iluminada, e os sinos tocavam!

Mapa Marina Vasconcelos

A expedição pelos relatos de Pohl

Os integrantes da expedição que vieram antes da princesa saíram para percorrer o território brasileiro logo que chegaram. Uma parte foi para o litoral do Rio de Janeiro, para a região de Cabo Frio; outra parte foi para São Paulo.

Pohl, que veio na comitiva de Leopoldina, organizou sua primeira viagem de pesquisa para a Ilha Grande, no estado do Rio de Janeiro. Passou por colinas, florestas de palmeiras, montanhas e vales. Depois seguiu para o interior do país, queria explorar Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso. Depois, foi para a região Norte e também para o Sul. Em seus relatos dizia que por todos os lugares via uma natureza de riqueza e beleza incomparáveis. “Tudo aqui é maravilhoso, exuberante, singular! Exércitos de papagaios de todas as cores nos acompanham”, ele descreveu.

 

Resultados da pesquisa

Em janeiro de 1820, após viagens contínuas, Pohl ficou fraco e doente. Deitado sobre uma maca, duas mulas transportaram-no para uma fazenda, onde se recuperou. O resultado do trabalho científico de seu grupo foi imenso. Havia desenhos, pinturas e descrições de aves, anfíbios, peixes, mais de dois mil insetos, 31 mil plantas, mais de quatro mil minerais, além de muitas sementes.

Tudo o que coletaram seguiu de navio para Viena em abril de 1821. A coleção foi catalogada em Viena e levada, em 1831, ao Brasilianum, o museu brasileiro, instalado na capital autríaca, do qual Pohl se tornou responsável. O museu não existe mais, foi fechado em 1836.

Pohl fez um diário que rendeu um documento com vários volumes sobre a expedição. Sobre sua pesquisa, escreveu: “Espero que os resultados da minha viagem tragam novos conhecimentos para o campo da geografia e das ciências naturais. Nós, europeus, não podemos imaginar a diversidade que nos trópicos existe em tudo: nas plantas, nos minerais e animais.”

Cientistas da comitiva da princesa Leopoldina

Joseph Raddi: cientista natural, botânico, nascido em Florença, Itália, em 1770
O que pesquisou? Samambaias.
Onde? Norte do Rio de Janeiro.

Johann Baptist Emanuel Pohl: médico, botânico e mineralogista, nascido em Boêmia, Alemanha, em 1782
O que pesquisou? Plantas, gramíneas, sementes, insetos, minerais.
Onde? de Norte a Sul do Brasil.

Rochus Schüch:  naturalista, mineralogista, nascido na Morávia (atual República Tcheca), em 1788
O que pesquisou? Minerais.
Onde? Minas Gerais.

Gloria Kaiser

historiadora e pesquisadora austríaca
membro correspondente da Academia de Letras da Bahia.

Matéria publicada em 10.03.2020

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