Reinos da África

Tem gente que se refere à África como se fosse um único país. Acontece que a África é um continente maior do que o nosso, a América do Sul. Reúne 54 países com riquezas culturais muito diversas. Alguns desses países já foram reinos ricos e poderosos. Se quiser conhecer um pouquinho dessa parte fascinante da história dos povos africanos, está na leitura certa!

Ilustração Mariana Massarani

Muitos séculos antes de os primeiros portugueses chegarem na África pelo oceano Atlântico, havia comerciantes africanos que atravessavam o deserto do Saara para levar seus produtos de um lugar a outro de seu continente, e até para a Europa e a Ásia. Eles vendiam diversos produtos, entre os quais os mais valiosos eram o sal e metais preciosos. Nessa época, a Idade Média, a África era conhecida na Europa como“terra do ouro”.

Um bom vendedor sabe que precisa ir a muitos lugares para buscar produtos e a muitos outros para apresentá-los, se quiser fazer boas vendas. Em outras palavras, um bom vendedor precisa fazer diferentes rotas de comércio. No passado não era diferente: os comerciantes africanos cruzavam o deserto do Saara com destinos variado sem caravanas que iam e vinham com muitas pessoas.

Uma das mais importantes e ativas rotas de comércio da África saía de Marraquexe, passava pelas minas de sal de Tagaza e chegava até o antigo reino de Gana. Havia outras rotas também importantes, como a que ia de Túnis à terra do povo hauçás, no norte da Nigéria atual. Além da longa e importante rota de Gao até a cidade do Cairo. Essas rotas centrais se dividiam em outros vários caminhos. Nos pontos de descanso das caravanas que cruzavam o deserto surgiram cidades e aldeias.

Mapa Nato Gomes

Ouro, sal e poder

O crescimento do comércio com as rotas pelo Saara trouxe muita riqueza para algumas localidades da África. E como onde há riqueza há poder, alguns reinos foram surgindo. Esses reinos eram favorecidos por terem acesso e controle dos bens mais valorizados no Norte do continente: o ouro e o sal. Os mais conhecidos entre esses reinos da África ocidental entre os séculos 10 e 14 são: Gana, Mali e Songai.

 

Nos reinos de Mali e Songai os soberanos (reis) se converteram à religião islâmica, fortalecendo ainda mais as ligações desta região com as rotas de longa distância comandadas por muçulmanos, que são os seguidores da religião islâmica.

A política dos Mansa (palavra que queria dizer ‘rei’ no Mali) atraiu mercadores, professores e profissionais de diferentes áreas para seu reino, tal era a riqueza local. Um dos mais famosos soberanos do reino do Mali foi Mansa Mussa, que ao realizar sua peregrinação, ou seja, seu longo caminho até Meca, cidade sagrada dos muçulmanos, entre os anos de 1324 e 1325, teria impressionado a todos com sua riqueza. No caminho, na cidade do Cairo, no Egito, Mansa Mussa teria presenteado tantas pessoas com ouro, que o valor desse metal, na época, se desvalorizou por mais de 10 anos. A fama de Mansa Mussa foi tão grande que, num mapa da África Ocidental, a figura desse soberano aparece com uma pepita de ouro na mão.

 

Mapa Nato Gomes

Arte, conhecimentos e técnicas

Além dos reinos de Gana, Mali e Songai, houve outros núcleos de poder na África ocidental, alguns em torno de cidades importantes como nas regiões hauçá e iorubá, que ficam hoje na Nigéria. Em Ifé, cidade sagrada dos iorubás, produziam-se, desde tempos muito antigos e com sofisticadas técnicas de escultura, as famosas cabeças de bronze que datam provavelmente dos séculos 13 e 15. Estas obras de arte, descobertas em 1938, impressionam até hoje todos que as veem pela qualidade do trabalho artístico.

 

Atlas Catalão, detalhe, 1375.
Fonte: Históriativa Net

A região iorubá era urbanizada, com núcleos de poder como a região de Oió, que chegou a exercer seu domínio sobre outras cidades da região, sendo por essa razão conhecida como um reino.

Os reinos da África ocidental também incluíam diversos povos de agricultores e mineradores que criavam as grandes riquezas controladas por reis e nobres. Estas pessoas, com técnica e talento, produziram objetos de arte, inventaram instrumentos, criaram tecnologias e sistemas de trabalho que contribuíram para o desenvolvimento da produção agrícola e da mineração não só em suas regiões como para o Brasil – quando homens e mulheres foram trazidos pelo tráfico de escravizados.

 

Reino do Congo

Na África centro-ocidental, entre os países que são hoje Angola, Congo e República Popular do Congo, desde o século 14 ficava o antigo reino do Congo. Nesse reino, moravam povos que viviam da atividade agrícola e também comercializavam diversos produtos com grupos de outras regiões. O território do reino era dividido em pequenos povoados e seus limites eram traçados pelas aldeias que pagavam impostos ao poder central, que estava nas mãos do Mani Congo, o soberano local.

A capital do reino era conhecida como Banza Congo e, na época, era tão grande como as capitais da Europa. Os portugueses quando chegaram pela primeira vez à região do reino do Congo, em 1483, ficaram espantados com o tamanho e o esplendor dessa cidade. As construções eram impressionantes, assim como a riqueza do interior das residências. Havia na cidade verdadeiros labirintos, só conhecidos por alguns, que levavam ao palácio, onde os aposentos reais tinham paredes decoradas com finíssimos tapetes e tecidos de ráfia.

 

Cabeça em bronze, arte yorubá.
Foto Sailko/Wikimedia Commons

 

Ferro sagrado

Na região do antigo reino do Congo e no norte de Angola atual, onde ficava o reino do Ndongo (Dongo), no qual governou a famosa rainha Nzinga (Ginga), no século 17, havia uma longa tradição com metalurgia, isto é, de trabalho com ferro.

Os ferreiros eram profissionais com muito prestígio e seu ofício era considerado sagrado. Nesses reinos, os instrumentos de trabalho, objetos rituais e artísticos eram fabricados com muito cuidado. Todo o conhecimento que envolvia essa atividade era passado de pai para filho.  Havia cerimônias secretas para a habilitação dos futuros ferreiros. Como em quase todas as sociedades africanas, o saber e o poder eram governados pela relação com o mundo dos espíritos e das divindades.

Além de fixar a jornada de trabalho de oito horas por dia, a Constituição de 1934 também deu ao trabalhador o direito de ter um descanso semanal e férias anuais remuneradas e de receber dinheiro (um espécie de indenização)quando é mandado embora do emprego sem motivo justo. Na política, houve um avanço importante: as mulheres conquistaram o direito de votar!

Reinos sem reis

O que chamamos de reinos africanos, para ficar mais fácil de entender, nem sempre tinha uma figura de rei como nós conhecemos. Eram como cidades ricas, desenvolvidas e poderosas que dominavam outras cidades e aldeias ao seu redor. Surgiram não apenas na África ocidental, mas também na África oriental, nas regiões próximas à costa do oceano Índico.

Um exemplo de reino na África oriental? O antigo reino do Zimbábue, no sul da África oriental! Como resquício desse reino, ficaram as majestosas ruínas de pedra conhecidas como Grande Zimbabué.Entre os séculos 13 e 15, extraía-se de lá ouro, cobre e ferro, que cruzavam o oceano Índico para serem comercializados.

 

Antes dos Europeus…

Como podemos observar, a história da África ao sul do deserto do Saara, antes do contato com os europeus pelo oceano Atlântico,está repleta de riquezas e expressões de poder. As sociedades da época criaram formas de governo que se assemelham aos reinos e impérios que conhecemos, bem como formaram exércitos de guerreiros e guerreiras – como as amazonas do Daomé. Mas, principalmente, produziram arte, conhecimentos e técnicas que se espalharam pelo mundo por meio da herança africana, que está na vida e na memória de seus descendentes e deve ser valorizada e preservada.

 

Mônica Lima,

Laboratório de Estudos Africanos,
Instituto de História,
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Matéria publicada em 06.12.2018

COMENTÁRIOS

Envie um comentário

admin

CONTEÚDO RELACIONADO

A ilha do Natal

Se você encontrasse uma ilha no dia 25 de dezembro, que nome daria?

Nise da Silveira, uma cientista brasileira louca pela medicina

Ela misturava arte e terapia e criou um museu de imagens feitas pelos seus pacientes