Pequeninos, resistentes e surpreendentes

Peixes que sobrevivem fora d’água. Que história é essa?

Você está passeando pela floresta e avista uma pequena lagoa isolada que, após vários meses sem chuva, ficou completamente seca. Os animais aquáticos que ali viviam aparentemente desapareceram. Mas o período de chuvas recomeça, você volta para visitar o lugar e a lagoa está cheia de larvas de insetos, girinos e… peixes! Peixes! Anfíbios e insetos podem ter chegado andando ou voando. Mas como os peixes foram parar ali???

Esse tipo de situação pode parecer impossível, mas é muito comum em ambientes aquáticos temporários da África e da América do Sul. É que nesses continentes existe um tipo de peixe que tem um jeito muito interessante de sobreviver nos períodos de seca. No Brasil, especialmente, existem centenas de espécies desses peixinhos. Eles medem poucos centímetros de comprimento, e podem ser encontrados em todos os biomas do país. Mas, afinal, como eles fazem pra sobreviver na ausência de água?

Peixe-anual (macho adulto da espécie Cynopoecilus fulgens)
Foto Pedro Hoffmann

Na verdade, os peixes adultos não sobrevivem à seca da poça ou lagoa. Mas não morrem sem antes acasalar e depositar seus ovos na lama. E, de modo semelhante ao que acontece com as sementes de algumas plantas, os ovos desses peixinhos podem permanecer “dormentes” por vários meses, ou até anos! A volta das chuvas é o sinal que faz os ovos continuarem se desenvolvendo até o nascimento dos alevinos (os peixinhos recém-saídos dos ovos). Essa nova geração de peixinhos cresce rapidamente e, em poucas semanas, já está pronta para se reproduzir, reiniciando o ciclo de vida dos chamados peixes-anuais.

Peixe-anual (macho adulto da espécie Austrolebias minuano)
Foto Pedro Hoffmann
Os ovos da fêmea do peixe-anual sobrevivem na seca por muito tempo. Quando voltam a ter contato com a água, os peixinhos nascem!
Foto Vinícius Weber

Antes de conhecer a grande resistência desses ovos à seca, algumas pessoas acreditavam que esses peixes de algum modo “caíam do céu” com as chuvas. Essa ideia era reforçada pela ocorrência de peixes mesmo em poças formadas onde a água nunca havia se acumulado antes. É que os ovos de peixes-anuais também podem pegar carona grudados nas penas e nos pés de aves aquáticas, sendo assim transportados de uma poça a outra. Pesquisadores brasileiros demonstraram recentemente que alguns ovos sobrevivem até quando são acidentalmente engolidos por essas aves, sendo eliminados, ainda com vida, em seu cocô. Isso pode não ser um truque de mágica, mas é igualmente espetacular, você não acha?


Vinícius São Pedro,
Centro de Ciências da Natureza,

Universidade Federal de São Carlos

Sou biólogo e, desde pequeno, apaixonado pela natureza. Um dos meus passatempos favoritos é observar animais, plantas e paisagens naturais.

Matéria publicada em 26.06.2019

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