Peixes luminosos

Já passou por essa situação: você está em um lugar afastado da cidade, com pouca luz e, de repente, aparecem pontinhos luminosos acendendo aqui e ali? Sim, estamos falando dos vagalumes que enfeitam as noites quentes com seu brilho! Eles são exemplos de animais que geram luz própria. Mas existem outros animais com essa capacidade, entre os quais estão os astros dessa nossa conversa: os peixes!

Ilustração Mariana Massarani

Bioluminescência é a capacidade que alguns seres vivos têm de emitir luz. Existem animais, plantas, bactérias e até fungos bioluminescentes. A maioria desses seres gera luz pelo mesmo processo: uma reação entre duas substâncias de nome engraçado – luciferina e luciferase – presentes no organismo deles. Essas substâncias é que liberam energia na forma de luz.

Os seres que, digamos, “acendem” alguma parte de seus corpos costumam ser ativos durante a noite, quando sua mensagem luminosa é mais visível. Porém, é em ambientes sempre escuros, como as cavernas ou o fundo dos oceanos, que encontramos maior diversidade de seres bioluminescentes.

 

Vida na escuridão

Nas regiões profundas dos oceanos, conhecidas como zonas abissais, onde a luz do Sol nunca chega, nove em cada dez organismos emitem luz. E isso não é por acaso. Afinal, ter luz própria pode trazer uma série de vantagens. Imagine você sozinho, em meio a uma floresta totalmente escura. Dá calafrios só de pensar, não? Agora, se você tiver uma lanterna, pode procurar ajuda, abrigo, alimento e até o caminho para sua casa.

Nas cavernas profundas vive a maioria dos peixes luminosos. Eles têm estruturas especiais pelo corpo que são capazes de acender. Essas estruturas podem ser na forma de órgãos ou glândulas luminosas ou ainda podem ser pequenos pontos chamados fotóforos. Muitas vezes essas estruturas são recobertas por lentes, formadas por escamas especiais, que ampliam o efeito da luz.

As glândulas luminosas e os fotóforos podem estar ao redor dos olhos, no alto da cabeça ou ao longo do corpo do peixe, especialmente na parte de baixo. Alguns peixes luminosos têm sua estrutura bioluminescente na extremidade de hastes, como é caso do peixe-pescador, ou na ponta de barbilhões, como no peixe-dragão.

Luz na superfície

Embora a maioria dos peixes luminosos viva nas regiões abissais, existem espécies de águas rasas e próximas das praias, como o bagre-sapo, também conhecido em algumas regiões do Brasil como miracéu. Seu nome científico é Porichthys porosissimus, que em grego, significa “peixe com muitos poros”. Esse pequeno peixe tem centenas de fotóforos. É ativo principalmente à noite, mandando mensagens de luz a outros peixes. Se você estiver atento, pode encontrá-lo em alguma praia do nosso litoral.

Luminosos e diferentes

O peixe-pescador, que pode chegar a 18 centímetros de comprimento, é um exemplo bem curioso de peixe luminoso. Ele recebe esse nome porque “pesca” suas presas utilizando uma estrutura longa que fica no topo da sua cabeça. Ele atrai suas presas agitando a luz que fica na ponta da sua “vara-de-pescar”, como se fosse uma isca para atrair bichinhos curiosos que acabam lhe servindo de alimento.

As luzes emitidas pelos peixes luminosos podem ter várias funções. Podem servir para atrair organismos menores e curiosos que acabam se tornando alimento. Nesse caso, além do peixe-pescador, outras espécies acendem alguma região próxima de suas bocas e atraem suas presas com luzes, que funcionam como iscas na ponta de um anzol. E com essa estratégia de caça, os peixes luminosos gastam pouca energia para conseguir alimento.

Peixe-pescador: atrai presas com sua isca luminosa.

Dentes na escuridão

Muitos peixes luminosos das zonas abissais podem apresentar dentes enormes e olhos bem grandes, criando uma aparência assustadora, como os peixes-dragão do gênero Stomias. Esses peixes têm um grande fotóforo na ponta do barbilhão, utilizado para atrair suas presas: pequenos peixes, lulas, pequenos camarões e zooplâncton.

Cardume iluminado

Outros peixes luminosos, como os peixes-lanterna, podem ter entre dois e 30 centímetros de comprimento, formam grandes cardumes (com até milhões de indivíduos!) e têm de dezenas a centenas de fotóforos espalhados por todo o corpo. Os peixes-lanterna da família Myctophidae são muito abundantes e diversificados, sendo conhecidas mais de 250 espécies. Além dos fotóforos, algumas espécies contam com órgãos luminosos em volta dos olhos, permitindo ver na escuridão. É como se tivessem sua própria lanterna.

Peixe-lanterna da família Myctophidae: com seus fotóforos (em azul) e órgãos luminosos (em amarelo).

Os peixes-lanterna vivem em águas oceânicas, em profundidades de até 2 mil metros. Ao anoitecer, sobem até próximo da superfície, entre dez e 200 metros, à procura de seu alimento preferido: o zooplâncton. Ao amanhecer, retornam para as grandes profundidades e repetem a viagem diariamente. Esse movimento, chamado de migração vertical diária, é realizado por milhares de espécies de oceano profundo, e é o maior movimento coordenado de organismos em todo o planeta.

Peixe invisível

A migração vertical diária, ou seja, o sobe e desce dos peixes luminosos é realizada por dois motivos: eles precisam comer e não querem virar comida para outros predadores. Por isso, sobem à noite, quando há menos luz e são menos visíveis, podendo se alimentar com mais tranquilidade. Entretanto, em noites enluaradas, a sombra desses peixinhos pode ser vista por predadores que estão mais abaixo. É aí que entra uma habilidade superespecial chamada contrabioluminescência! Esse fenômeno acontece com os peixes-lanterna, por exemplo, que têm dezenas de fotóforos no ventre. Eles conseguem emitir a mesma quantidade de luz que vem da superfície ficando “invisíveis”, para peixes que estão logo abaixo. Por quê? Porque não emitem sombra!

Luz de defesa

A luz emitida pelos peixes bioluminescentes também é utilizada para assustar, e assim afastar, peixes maiores que queiram devorá-los. Imagine o susto que você levaria se a sua comida acendesse de repente na escuridão!

Par perfeito

Uma das funções mais importante da bioluminescência é permitir que esses peixes possam reconhecer aqueles da sua espécie, não apenas para formar cardumes, como também para encontrar seu par para acasalar. Esse encontro acontece pela localização dos fotóforos e glândulas luminosas ao longo do corpo, mas também pelo ritmo e padrão do “pisca-pisca”, bem como pela cor e intensidade das luzes.

Falando de cor, a luz emitida pela maioria dos peixes bioluminescentes é azul ou azul-esverdeada. No entanto, uma espécie da família Stomiidae, chamada Malacosteus niger, pode emitir e ver a luz vermelha, uma cor que a maioria dos seres abissais não enxerga. Isso faz com esses peixes iluminem o oceano ao seu redor sem que outros seres percebam, sendo muito útil para procurar alimento sem chamar a atenção, evitando os predadores.

Malacosteus niger: produz e enxerga luz vermelha.

Curiosidade brilhante

Agora que você aprendeu um pouco sobre as criaturas luminosas que vivem nos oceanos e suas estratégias de vida, mantenha a luz da sua curiosidade brilhando e pesquise sobre outros seres vivos que acendem alguma parte de seus corpos e ainda sobre outros animais marinhos que vivem nas profundezas dos oceanos. Existe muita coisa interessante para descobrir!

 

Carlos Alberto da Cunha Filho e Luciano Gomes Fischer

Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade NUPEM/UFRJ
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 20.03.2019

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Vou fazer isso agorinha!

    Publicado em 8 de junho de 2019 Responder

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admin

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