Nosso direito de ter um céu para olhar

A luz que vem das cidades versus a luz que vem do céu.


A cidade de Nova York, nos Estados Unidos, vista por satélite à noite.
Foto NASA

Você já viu a fotografia de alguma grande cidade do mundo tirada por um satélite à noite? Pode ser de São Paulo, de Tóquio (no Japão) ou de qualquer outra. A gente pensa: “Uau! Quanta luz! Dá pra ver as estradas! Barquinhos na água! Que bonito!”. Para os astrônomos – amadores ou profissionais –, essa iluminação excessiva emitida pelas grandes cidades não é tão admirada. Vou contar o porquê…

Já viajou para um local bem longe de uma cidade grande? Quando eu era criança, meus pais costumavam me levar para passear na Região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro. Passávamos o dia em alguma praia e voltávamos à noite. A estrada não tinha iluminação. E eu vinha grudado no vidro traseiro do carro, fascinado com um céu salpicado de estrelas.

Um pouco depois da adolescência, comecei a fazer trilhas, dessas de ficar acampado com a barraca que levava no mochilão. Eu adorava me reencontrar com aquele mesmo céu da infância. Uma vez, junto com os colegas de acampamento, identifiquei a Grande Nuvem de Magalhães, galáxia que, com sorte, conseguimos ver em noites de céu muito limpo. Noutra, fui surpreendido por uma chuva de meteoros (isso me parece tema para outro bate-papo aqui!).

Mais tarde juntei as peças. Aquela mesma luz que nos permite ver o desenho das cidades, estradas e barquinhos na noite terrestre nos impede de ver as estrelas. É o desperdício da luz artificial que, jogada para o alto, nos ofusca a visão de estrelas e galáxias. De dentro dessas cidades, no máximo, vemos as estrelas mais brilhantes e os planetas. Este desperdício tem um nome: poluição luminosa. Pois é. Nossa civilização urbana e industrial, além de precisar ter responsabilidade com o que joga no ar, nas matas, nos rios e nos mares, precisa ter responsabilidade igual para não nos negar o que era algo comum a todos até poucas gerações atrás.

A poluição luminosa é algo tão sério que a União Astronômica Internacional – associação dos astrônomos profissionais de todo o mundo – busca o reconhecimento do céu noturno como um Patrimônio da Humanidade. Por quê? Porque sem a possibilidade de contemplar o céu noturno, perdemos nossa própria identidade com o que há de mais humano em nós: nos defrontarmos com a infinitude do Universo e os mistérios do mundo. O céu também é seu: preserve-o!


Jaime Fernando Villas da Rocha

Departamento de Física, Instituto de Biociências,
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

Sou astrônomo com diploma e tudo! E um apaixonado pelos astros, a começar pelo planeta em que vivemos. Este espaço fala de como vemos o Espaço, incluindo a Terra.

Matéria publicada em 07.01.2019

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Acho elas muito bonitas por isso ,vou fazer o que posso pra colaborar!

    Publicado em 10 de fevereiro de 2019 Responder

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