Hospedagem animal

Pássaros espertos usam girafas, búfalos e outros mamíferos para se alimentar e descansar

Estudar a vida selvagem pode ser bastante trabalhoso. O que aquele bicho come? Onde dorme? Quem são seus predadores naturais? Para responder a essas e outras perguntas, geralmente é preciso passar dias (às vezes, semanas ou meses) em campo, fazendo observações, anotações, filmagens e fotografias.

Atualmente, cientistas do mundo todo contam com uma tecnologia que facilita os estudos e permite descobertas sensacionais. São as armadilhas fotográficas, câmeras escondidas que filmam e fotografam a bicharada de forma automática, por meio de sensores de calor ou movimento. E elas fazem registros até no escuro!

Foi com 225 armadilhas fotográficas que a cientista estadunidense Meredith Palmer e seu professor Craig Packer estudaram o comportamento de animais no Parque Nacional do Serengeti, na Tanzânia, país da África. Entre 2010 e 2013, as câmeras automáticas tiraram mais de 930 mil fotos da vida selvagem no parque! Para analisar tantas imagens, os pesquisadores contaram com a colaboração da população, em uma iniciativa de ciência cidadã, que acontece quando pessoas que não são cientistas são voluntárias para ajudar nas pesquisas.

Em meio a tantas imagens, Palmer encontrou 137 em que aparecia a mesma espécie de passarinho: o pica-boi-de-bico-amarelo (Buphagus africana). O nome curioso é porque essas aves se alimentam de pele morta e ectoparasitas (como os carrapatos) de búfalos e de outros grandes mamíferos herbívoros da savana africana, como as girafas, os rinocerontes e os elandes (um “primo” dos bois).

Nas fotografias da pesquisa, Meredith Palmer notou que os pica-boi-de-bico-amarelo ficavam durante o dia principalmente sobre os búfalos, se alimentando. Mas, veja só que curioso: cinco fotografias noturnas mostraram essas aves descansando sobre os búfalos e os elandes! Às vezes, até três pica-boi-de-bico-amarelo repousavam tranquilos sobre os flancos ou o traseiro desses mamíferos. Mas, em 20 registros noturnos, as girafas foram escolhidas como abrigo. Elas têm pernas compridas e até sete pássaros foram vistos descansando agarrados na barriga ou nas “axilas” de uma girafa.

Armadilhas fotográficas flagraram aves descansando à noite sobre grandes mamíferos herbívoros no Parque Nacional do Serengeti, na África: girafas, elandes e búfalos. Fotos: Dra. Meredith Palmer/Snapshot Serengeti project.

Por que os pica-boi-de-bico-amarelo preferem os búfalos para as refeições e as girafas para a soneca? Os búfalos são abundantes no Serengeti, e mais de 30 mil deles vivem lá em grandes manadas, enquanto as girafas do parque são 9 mil. Ou seja, os búfalos oferecem um banquete mais farto aos pássaros. As girafas, por outro lado, são altas e oferecem um abrigo noturno mais protegido e quentinho aos pica-boi-de-bico-amarelo. Mas, como há menos girafas que búfalos e elandes, as vagas para “hospedagem” devem ser disputadas. Será que elas aceitam reserva com antecedência?


henrique-caldeira

Henrique Caldeira Costa,
Departamento de Zoologia
Universidade Federal de Juiz de Fora

Sou biólogo e muito curioso. Desde criança tenho interesse em pesquisar os seres vivos, especialmente o mundo animal. Vamos fazer descobertas incríveis aqui!

Matéria publicada em 25.08.2021

COMENTÁRIOS

  • carol

    interessante mais nao gostei muito mais msmo assim ate que eu gostei um pouquinho da reportagem

    Publicado em 11 de setembro de 2021 Responder

  • Jhonathan Costa

    Incrível! Que inteligência esses animais tem, sobrevivem com o que é disponível e aonde é disponível, muito bom, meus parabéns! Espero um dia fazer essas pesquisas também, muito bom!

    Publicado em 26 de outubro de 2021 Responder

  • Alunos do 5° ano EMEFEI Haldrey

    Olá pessoal da CHC! Somos alunos do 5 ano, conhecemos a revista na aula de língua portuguesa. Nós não sabíamos que existiam pássaros hospedeiros em bois, neste caso em búfalos. Gostamos muito do nome do pássaro “pica boi do bico amarelo”, bem curioso! Gostamos muito de conhecer a revista e iremos acessar mais vezes.

    Publicado em 2 de dezembro de 2021 Responder

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