Gafanhotinho-tigre. Que bicho é esse?

Grilos, esperanças e gafanhotos fazem parte de um grande grupo chamado ortóptera. Comparados aos grilos, que geralmente encontramos cantando, os gafanhotos parecem gigantes! São sempre maiores? Nem sempre! Entre os ortópteros há uma família de pequenos gafanhotos que vivem na vegetação: os eumastacídeos. 

O gafanhotinho-tigre tem antenas curtas e as pernas maiores, que ficam sempre abertas quando parado.
Foto Paulo Robson de Souza

Nas Américas, os eumastacídeos são encontrados desde o sul de Buenos Aires, na Argentina, até a Califórnia, nos Estados Unidos. Têm geralmente um centímetro e meio de comprimento, mas algumas espécies podem atingir até quatro centímetros. São bem diferentes dos gafanhotos que estamos acostumados a ver: suas antenas são muito curtas e as pernas maiores ficam sempre abertas quando o animal está parado. Também não escutam nem “cantam” como outros gafanhotos. De tão coloridos, são chamados gafanhotos-palhaço nos países de língua espanhola! Por serem muito ágeis movendo-se nos arbustos, na Califórnia, são conhecidos como gafanhotos-macaco.

No Brasil, um desses pequenos gafanhotos é encontrado em toda a Serra da Bodoquena e em alguns locais do Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Ele também pode ser observado em raros lugares da Argentina, do Paraguai e da Bolívia. Por ter manchas amarelas e escuras, lembrando um tigre, os cientistas deram-lhe o nome Temnomastax tigris. Como ele não possui um nome comum, aqui vamos batizá-lo de gafanhotinho-tigre.

 

Comedores de sal

Na Bodoquena, os machos do gafanhotinho-tigre são frequentemente encontrados às centenas nas margens dos rios, nas horas quentes do dia, comendo os sais minerais dissolvidos nas águas típicas da região.

Curiosos em saber o quanto esses insetinhos gostam de sais, fizemos uma experiência: colocamos xixi (rico em sal) dentro de uma garrafa (com todo cuidado e higiene, claro!), e “desenhamos” bem direitinho um círculo de urina no chão para termos uma prova dessa predileção, na tentativa de fotografarmos uma roda de gafanhotos em volta da urina. E não é que deu certo?!

Querendo saber quais tipos de formigas ocorrem na unidade de conservação ambiental Cara da Onça, também em Mato Grosso do Sul, pusemos no chão um guardanapo de papel com um pedaço de sardinha conservada em óleo (rica em sal!) para atraí-las. Vieram as formigas e, de quebra, vários gafanhotos-tigre para fazer uma boquinha – todos machos!

A bicharada comedora de sal

Na natureza, diversos são os bichos que gostam de sal. Muitos veados, porcos-do-mato, antas e algumas aves têm o hábito de visitar salinas naturais em busca desse mineral. Mas qual o motivo de fazerem isso? A maioria dos animais que comem folhas, frutas, raízes e sementes precisa acrescentar o sal à sua dieta, pois a quantidade necessária nesses alimentos costuma ser insuficiente. Às vezes, comem o sal nos cochos destinados aos bois! É o caso desse tiriba-fogo (o periquito Pyrrhura devillei), que fotografamos comendo uma pedra do sal para bovinos, em uma fazenda no município de Bodoquena, Mato Grosso do Sul.

Fotos Paulo Robson de Souza

Close no gafanhotinho-tigre!

Agora que você sabe reconhecer gafanhotos eumastacídeos, aqui vai um convite: vamos fotografá-los por aí? Se você mora em Bodoquena, Bonito, Corumbá ou em outro município de Mato Grosso do Sul onde ocorre o gafanhotinho-tigre, é fácil encontrá-lo na natureza. Mas, se estiver distante desses locais, não se preocupe! Até o momento está confirmada no Brasil a ocorrência de outras 43 espécies que fazem parte da família do nosso gafanhotinho-tigre. Para reconhecê-los, que tal a ajuda de um pequeno guia de gafanhotos com fotos de algumas espécies e onde elas ocorrem? A CHC digital tem essa surpresa para você!

Machos e fêmeas de acordo com a época

Em novembro de 2014 encontramos 60 gafanhotinhos-tigre machos adultos, quase todos localizados próximos às margens do rio Salobra, em Mato Grosso do Sul, enquanto apenas uma fêmea adulta e duas muito jovens (imaturas) foram observadas na mata. O motivo? Nos gafanhotos eumastacídeos a proporção de machos e fêmeas adultos varia ao longo do ano. Machos podem predominar em certa época e fêmeas em outra. Raramente a quantidade de fêmeas e machos encontrados é equilibrada. Acredita-se que esta alternância no número de fêmeas e machos adultos se deve ao tempo necessário ao desenvolvimento, que é diferente entre os sexos do gafanhotinho-tigre.

O macho mede apenas dois centímetros de comprimento, já a fêmea é um pouco maior. Além disso, a fêmea tem uma estrutura em forma de pinça no final do abdômen, usada para abrir pequenos buraquinhos no solo e pôr os ovos, que irão amadurecer e gerar filhotes.
Fotos Paulo Robson de Souza
Repare o lado esquerdo da foto: há dois gafanhotinhos-tigre se empanturrando de sal junto a borboletas, na margem do rio Salobra (MS). Curioso é que, em toda a Serra da Bodoquena, não há outro tipo de gafanhoto da sua família!
Foto Paulo Robson de Souza

É uma pena que os cientistas ainda não tenham localizado esses pequenos e incríveis gafanhotos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e na porção mais ao Sul do Paraná, pois essas regiões costumam ter temperaturas mais baixas, e eles preferem lugares mais quentes para viver. Mas, considerando que uma espécie ocorre também na Argentina, país vizinho desses estados, quem sabe se você, morando ou visitando o Sul do Brasil, não será o primeiro a encontrar algum eumastacídeo nessas bandas?

Esteja onde estiver, ao encontrar um gafanhoto eumastacídeo, mande uma foto para a redação da CHC! O endereço é: redaçã[email protected]

Praga de gafanhotos?

Vira e mexe se ouve falar nos perigos de uma nuvem de gafanhotos. A pergunta é: todo gafanhoto pode formar nuvens e arruinar plantações? A resposta: não! Pouquíssimos gafanhotos são capazes de gerar grandes quantidades de filhotes em tempo suficiente para causar sérios danos às plantas. Além disso, só algumas espécies são capazes de formar as conhecidas nuvens, em que milhões de gafanhotos famintos consomem a vegetação onde pousam. Uma prova disso é que no Brasil, até o momento, nenhum tipo de eumastacídeo foi observado causando danos às plantações.

Renan da Silva Olivier

Laboratório de Sistemática, Ecologia e Evolução
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Paulo Robson de Souza

Laboratório Multidisciplinar de Ensino de Biologia
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Rodrigo Aranda

Laboratório de Ecologia de Comunidade de Insetos
Universidade Federal de Rondonópolis

Matéria publicada em 23.10.2020

COMENTÁRIOS

  • Edson Silva- Campo Grande/Bodoquena

    Artigo muito interessante e educativo. Será levado ao conhecimento dos meus netos (Guilherme e Nícolas), assíduos frequentadores da RPPN Cara da Onça, onde ocorreu parte da pesquisa que originou a produção científica. Certamente eles vão prestar mais atenção no gafanhotinho-tigris e, inclusive, registrar outras fotos. Parabéns ao professor e pesquisador Paulo Robson, Renan e Rodrigo pelo artigo. E, também, à CHC pela publicação.

    Publicado em 24 de outubro de 2020 Responder

  • Paulo Robson de Souza

    Caro professor e jornalista Edson Silva, que alegria saber desse seu acolhimento ao nosso trabalho, e mais: recomendando-o aos seus netos! Que bom! De fato, a CHC fez uma bela publicação.

    E por falar em acolhida… Mais uma vez agradecemos a você e aos colegas da RPPN Cara da Onça (mun. de Bodoquena) por nos receber, apoiar nossas pesquisas nesse lugar maravilhoso. E pensar que quando estivemos lá sequer imaginávamos que apresentaríamos essa pequena joia saltitante da natureza para o universo infanto-juvenil…

    Publicado em 24 de outubro de 2020 Responder

  • LUÍSA GOMES

    🅱️🅾️〽️🌅❗sou pedagoga e guia de Turismo, Muito obrigada pelas informações.

    Publicado em 30 de outubro de 2020 Responder

  • Prof. Caroline Neris – UFMS

    Minha filha de 8 anos achou linda a foto do gafanhotinho.
    Adorei o artigo.
    Não sabia sobre essa necessidade de comer sal…
    Parabéns.

    Publicado em 3 de novembro de 2020 Responder

  • Mônica Schweiger

    Também achei interessante. As esperanças são mais comuns aqui no meu quintal, pois de tempos em tempos aparece uma ou outra, de dia, em Embu Guaçu/SP, onde a vegetação é mata Atlântica. Parabéns, Paulinho e autores. Esperando outros artigos como este.

    Publicado em 10 de novembro de 2020 Responder

  • Camilly

    Interessante! Sou muito fã de animais 🐕! Eu não gosto, eu amo muito muito infinito!❤️❤️❤️❤️❤️❤️

    Publicado em 11 de novembro de 2020 Responder

  • Beatriz

    Muito interessante e educativo!
    Gostei muito de aprender sobre o gafanhotinho-tigre e vários outros!!!🦗🦗🦗
    Isso que é notícia!!🗞📰
    Beatriz 4º ano Colégio Augustus Sabará/MG

    Publicado em 16 de novembro de 2020 Responder

    • Professora Naiara – 4° ano

      Bia, como a natureza é perfeita, não é?
      Esse gafanhoto além de lindo nos mostrou que possui um tipo de alimentação bem peculiar: o sal!
      Adorei descobrir um pouco mais sobre a natureza. Parabéns a equipe CHC e também a você Bia, pelo entusiasmo em
      querer aprender sempre mais!
      Beijos mil, minha linda!
      Tia Naiara

      Publicado em 25 de novembro de 2020 Responder

  • Beatriz

    Gostei muito
    Minha professora me passou esse site
    Sou do 4 ano do colegio Fonte Quaratingueta/SP

    Publicado em 17 de novembro de 2020 Responder

  • Alice Lelis Reis

    Estou usando muitas matérias da CHC em um trabalho escolar, Essa é uma delas. Me ajudou muitíssimo!

    Publicado em 26 de novembro de 2020 Responder

  • Alunos 4º Ano A

    São Paulo, 27 de Novembro de 2020.

    Olá, pessoal da Ciência Hoje Criança e pessoal que participou da pesquisa sobre os gafanhotinhos tigres.
    Nós somos estudantes do 4 ano A, da Escola Estadual Professor Ivo Bandoni, na Zona Leste da Cidade de São Paulo. Adoramos ler sobre animais, Universo, corpo humano, esportes e tecnologia. Por isso, gostamos muito do artigo publicado em Outubro de 2020 que recebe o título de “Gafanhotinho Tigre. Que bicho é esse?”.
    Descobrimos que existem várias espécies de gafanhotos e dentre elas um gafanhoto bem pequeno que não escuta e nem canta como os outros, além da sua necessidade de comer sal para repor esta substância em seu organismo.
    Parabéns pelo ótimo trabalho. Amamos a revista e gostaríamos de saber um pouco mais sobre o Universo.

    Até mais,

    Os alunos curiosos do 4 ano A.

    Obs.: Meu nome é Elisângela, sou professora desta turma maravilhosa. Por favor, enviem uma resposta por email para que possa mostrar aos meus queridos alunos.

    Publicado em 27 de novembro de 2020 Responder

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