Fantasmas na floresta?

Sozinho, na mata, muita gente jura que vê vultos brancos, passando rapidamente. Será coisa de outro mundo?

 

Caminhar à noite dentro de uma floresta pode parecer um tanto assustador para a maioria das pessoas. A escuridão dá destaque aos sons dos animais noturnos e a visão se limita aos vultos, aquela sensação de que alguém passou, mas você não conseguiu perceber bem quem ou o que era, sabe?

E se de repente, no meio da floresta, um enorme vulto branco atravessasse rapidamente por entre as árvores à sua frente, o que você faria? Congelaria? Correria léguas? Pois saiba que moradores de áreas rurais, caçadores e guardas-parque contam que têm visões como essas. Geralmente, essas pessoas interpretam como aparições de fantasmas ou seres lendários, que fazem parte do folclore da região. Mas, na maioria dos casos, a explicação para essas misteriosas visões não está no mundo sobrenatural, mas na ciência! Mais especificamente na área da genética, a ciência que estuda a transferência de características entre as mesmas espécies.

A maioria das espécies animais tem padrões de coloração bem definidos. Pense, por exemplo, nas cores dos pássaros que você conhece. Essas cores não surgiram por acaso. Elas foram selecionadas ao longo dos milhares de anos de evolução das espécies. Em geral, as cores dão alguma vantagem ao animal, como a de se proteger de outros animais. Um exemplo é a camuflagem, que é quando o animal se parece muito com o ambiente e que vive – alguns têm cor de folhas das árvores ou de troncos.

Mas mutações genéticas podem fazer com que alguns indivíduos nasçam com a coloração diferente da maioria dos membros da sua espécie. Este é o caso da onça-parda cuja foto fez sucesso recentemente nas redes sociais e noticiários. Ao invés de apresentar a coloração parda típica de sua espécie, o jovem macho, fotografado no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, é quase totalmente branco. Trata-se de uma mutação genética chamada leucismo, caracterizada pela falta de pigmentos (substâncias presentes nas células dos organismos e que são responsáveis pela coloração) em quase todo o corpo, exceto nos olhos e, às vezes, nas extremidades. A ausência completa de pigmentos é característica de outra mutação semelhante, o albinismo. Um bom exemplo neste caso é o da anta fantasmagórica, que por anos virou lenda em uma floresta do sudeste de São Paulo. Em 2014 o mistério se desfez quando o macho albino foi enfim registrado por armadilhas fotográficas.

Já pensou como seria sem graça se os animais fossem todos iguais ou tivessem todos a mesma cor? É na variedade de formas e cores dos organismos, e especialmente nesses raros exemplos, que a natureza nos ensina que a beleza do mundo está mesmo é na diversidade.

 

O melanismo é causado por uma mutação que leva à produção excessiva de melanina, um pigmento de cor escura. Essa onça-pintada (Panthera onca) é um bom exemplo.

Foto Bardrock/Wikimedia Commons

 

Colorações fora do padrão já foram registradas nos mais diversos grupos de animais, como acontece com esse esquilo albino (Sciurus carolinensis).

Foto Peter Trimming/Flickr

 

 


Vinícius São Pedro,
Centro de Ciências da Natureza,

Universidade Federal de São Carlos

Sou biólogo e, desde pequeno, apaixonado pela natureza. Um dos meus passatempos favoritos é observar animais, plantas e paisagens naturais.

Matéria publicada em 11.01.2019

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Adorei aprender!

    Publicado em 24 de março de 2019 Responder

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