Esqueletos também falam!

Quando um crime acontece, é preciso fazer uma investigação para desvendá-lo. Nos filmes, são usadas aquelas fitas amarelas para isolar a área, enquanto é aguardado o detetive. Mas sabia que o detetive pode precisar da ajuda de um cientista? Pois é! Existe uma especialidade chamada antropologia forense. As pistas seguidas por esses especialistas vêm de… ossos! Sim, os esqueletos também falam e ajudam a desvendar mistérios.

Ilustração Cruz

É claro que esqueletos não falam como nós, mas eles oferecem evidências científicas! Ou seja: informações que são estudadas por um antropólogo forense e que ajudam o investigador (o detetive) a identificar a vítima de um crime e a causa da sua morte, por exemplo. Ou informações sobre o suspeito do crime. Essa ajuda dos antropólogos forenses é necessária, principalmente, quando os métodos tradicionais de investigação, como vestígios de sangue e marcas digitais em objetos, não são suficientes.

Para entender melhor essa história, deixe de lado qualquer pontinha de medo de esqueletos e a transforme em curiosidade, certo? Curiosidade, aliás, é fundamental para um antropólogo forense. Uma profissão que já apareceu em um monte de séries policiais. Mas o trabalho não é tão fácil como na televisão!

 

Leitura de ossos

Além da curiosidade, o antropólogo forense precisa ter paciência e olhar muito atento aos detalhes. Onde uma pessoa comum vê apenas ossos ou fragmentos, o antropólogo forense vê um mundo de informações científicas.

Para entendermos o que ele faz, é preciso saber antes o que é antropologia. A palavra vem do grego: anthropos significa ‘homem’, e logos quer dizer ‘estudo’. Traduzindo… antropologia é a ciência que estuda o ser humano dentro da sociedade em que ele vive.

Já o termo ‘forense’ vem do latim forum, que significa ‘praça pública’. Na Roma antiga, as praças serviam como local de reunião para julgamentos e assembleias populares. Daí a ideia de que ‘forense’ tem a ver com a lei. Basicamente, investigação de crimes.

A antropologia forense tem métodos e técnicas próprias para ajudar a resolver esses crimes. Geralmente, ela é usada para investigar casos em que há mortos. As informações vêm dos esqueletos, lembra?

Aplicando os conhecimentos da antropologia forense é possível fazer os esqueletos “falarem” quem eles eram. O antropólogo forense analisa os ossos, e para isso os observa bem com lupas, usa ferramentas específicas para medir os ossos, e analisa os fragmentos em vários exames, como a radiografia.

 

Análise de esqueletos

Um exame dos ossos do quadril pode ajudar a saber se a vítima era homem ou mulher, por exemplo. Já um exame dos dentes ajuda a indicar a idade. O comprimento dos ossos longos, como o da coxa (fêmur), dá uma ideia da estatura, a altura da pessoa.

A análise dessas informações já ajudou e continua ajudando a solucionar muitos crimes na nossa história, sabia? Os conhecimentos da antropologia forense estão ajudando nas investigações de mortos e desaparecidos da época da ditadura militar no Brasil.Também têm sido muito úteis para ajudar a identificar os mortos em uma guerra dos anos 1970, chamada Guerrilha do Araguaia.

 

Vivos e mortos

Mas os conhecimentos da antropologia forense não valem apenas nos casos de mortos. Eles também ajudam na identificação de pessoas. Podem ajudar a descobrir quem são as pessoas flagradas em vídeos de câmeras de segurança praticando crimes, por exemplo. Isso se faz pela análise das feições de suspeitos.

E a antropologia forense pode ser útil para salvar inocentes também! Pela mesma combinação de informações pode-se desfazer o engano de alguém que esteja sendo acusado injustamente. Também é possível indicar a idade de crianças que se perderam dos pais, como em situações de deslocamentos forçados, causados por guerras pelo mundo.

Quando os casos são muito difíceis, é comum unir conhecimentos da antropologia forense com os de outras ciências, como medicina legal, odontologia legal, toxicologia forense, genética forense, entomologia forense… ufa!

Essas ciências compõem as chamadas ciências forenses, e são importantes porque contribuem para a resolução de crimes. Juntos, esses conhecimentos são essenciais para se chegar ao retrato de uma pessoa. Ou para apurar as circunstâncias da morte de alguém, por exemplo.

 

Pesquisas no Brasil

No Brasil, a antropologia forense tem muito caminho a percorrer. Ainda não temos essa especialidade com técnicas e métodos brasileiros. Em países como Estados Unidos, Portugal, França, Itália, Inglaterra, Hungria, Argentina e Peru, por exemplo, a antropologia forense avança há mais tempo. Mas quer saber a boa notícia? Aos poucos, essa ciência está conquistando espaço em locais de ensino e investigação por aqui. Já existem cursos de especialização e até centros de pesquisa.

Em algumas universidades e Institutos Médicos Legais, onde os mortos em crimes são examinados, há grupos fazendo estudos para criação de métodos e técnicas adequadas à nossa realidade. E muitos especialistas estrangeiros têm participado desse movimento no Brasil!

A divulgação dessa ciência é importante para que futuros pesquisadores conheçam e se interessem por ela. Afinal, a antropologia forense pode ser essencial onde só o que resta é… um esqueleto! Que pode ter muito a nos contar!

Foto Ednei.melo/Wikimedia Commons

Luzia

Luzia é o fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul. Ele fazia parte do acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, que pegou fogo, em 2018. Mas, o crânio de Luzia resistiu ao fogo. Se chegamos a conhecer suas feições, foi graças a essa união de conhecimentos que são aplicados nas ciências forenses.

Pesquisadores acharam o crânio de Luzia em uma gruta em Minas Gerais, em 1975. As análises e pesquisas desse material permitiram descobrir que se tratava de uma mulher que viveu há mais de 11 mil anos!

Essa informação também foi fundamental para os estudos sobre a ocupação humana do continente americano. Pela idade e características analisadas da Luzia, sabemos que os homo sapiens povoaram as Américas antes do que os pesquisadores pensavam! Em outras palavras, os conhecimentos aplicados na antropologia forense também ajudam no estudo sobre nossa evolução.

Andersen Liryo,

Departamento de Antropologia,
Setor de Antropologia Biológica,
Museu Nacional/UFRJ.

Matéria publicada em 22.03.2019

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Nossa, eu não conhecia esta ciência! Parece ser muito divertida e cansativa (cansativa porque tem que ter muito cuidado ao analisar os ossos)!

    Publicado em 15 de junho de 2019 Responder

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admin

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