Escavações científicas na cidade

Quem mora nas grandes cidades, com toda certeza, já se assustou com o barulho de britadeiras. Elas quebram as calçadas para consertar encanamento de água ou esgoto, preparam o terreno para erguer prédios, entre outras obras. Mas imagine que no meio do quebra-quebra das britadeiras surge uma moeda e alguns cacos de louça de tempos muito antigos! Sabe o que isso significa? Que o espaço da obra pode ser um sítio arqueológico, isto é, um local de pesquisa sobre povos antigos!

Ilustração Walter Vasconcelos

As escavações arqueológicas dentro das cidades recebem o nome de arqueologia urbana e, na maioria das vezes, as descobertas de objetos do passado acontecem em obras do governo. Esses objetos fazem parte da história e memória das cidades. Podem ser encontrados desde restos de antigas construções – como tijolos, telhas e pedras – até garrafas, vasilhames, cacos de louças, cerâmica, vidro, ferramentas, moedas, adornos, utensílios de metal, restos alimentares e muito mais.

Tudo isso interessa aos arqueólogos, que são especialistas em construir a História a partir do estudo de objetos e restos do passado. Os arqueólogos urbanos costumam receber grupos de estudantes, professores e, principalmente, a comunidade local para realizar atividades educativas, demonstrando o valor dos materiais e do sítio arqueológico que, por alguma razão, estavam enterrados.

O passado do Rio de Janeiro

As pesquisas realizadas no centro histórico do Rio de Janeiro são um exemplo rico de arqueologia urbana, porque foram feitas em sítios arqueológicos com características diferentes, como igrejas, quilombos, fortes e antigas residências.

Grandes descobertas aconteceram a partir de 1996, no período das obras da prefeitura para o escoamento das águas da chuva. Na época, um estudante de arqueologia chamado Isaac Almeida, que acompanhava o andamento das obras, percebeu a presença de ossos e fragmentos de louça portuguesa nos entulhos. Rapidamente, ele contou aos seus professores. A prefeitura tomou conhecimento dos achados e encaminhou aos arqueólogos para monitorarem as obras na região da chamada Praça 15. Os pesquisadores concluíram, por meio das análises e da pesquisa histórica, que o local era um antigo cemitério do século 17, sendo boa parte das pessoas enterradas de origem africana.

Ossos, possivelmente de origem africana, revelados em escavações na Igreja de São Gonzalo Garcia.
Foto Tuca Marques
Arqueóloga coletando amostras para análise em escavações na Igreja de São Gonzalo Garcia.
Foto Tuca Marques
Cachimbo, encontrado nas escavações da Igreja de São Gonzalo Garcia.
Foto Tuca Marques
Louça portuguesa do século 17, encontrada em escavações no Centro Histórico do Rio de Janeiro.
Foto Ísis Vieira

Cemitério no quintal de casa

Ainda no ano de 1996, outro cemitério de escravizados africanos foi descoberto no Rio de Janeiro, no bairro da Gamboa, no terreno da residência do casal Mercedes e Petruccio Guimarães. Eles estavam fazendo uma reforma em casa quando encontraram ossos humanos na escavação. Por suspeitar que se tratava de uma descoberta importante, avisaram aos técnicos da prefeitura e, logo após a visita deles, foram iniciados os trabalhos de coleta pela equipe de arqueologia da própria prefeitura.

Entre os materiais coletados havia uma grande quantidade de ossos humanos em pedaços, além de materiais variados, como cerâmica, louça, vidro, adornos e objetos de metais. Os pesquisadores descobriram que se tratava do cemitério onde eram enterrados os pretos novos, como costumava-se chamar os africanos escravizados recém-chegados ao Brasil. Aqueles que não resistiam à viagem da África, devido aos maus tratos e às péssimas condições de higiene em que eram transportados, morrendo logo após o desembarque, tinham esse cemitério como destino.

O Cemitério dos Pretos Novos é o maior cemitério de escravizados das Américas. É um sítio arqueológico importante porque recupera a memória esquecida das condições terríveis pelas quais os africanos eram traficados e vendidos. É importante falar que esses africanos escravizados não trouxeram apenas o seu trabalho braçal para o nosso continente, mas também contribuíram com tradições e conhecimentos.

Camadas de história

No século 21, muitas obras continuaram sendo feitas no centro histórico do Rio de Janeiro, monitoradas por arqueólogos. A pesquisa arqueológica desenvolvida em 2010 no Palacete do Antigo Museu Real, localizado próximo ao Campo de Santana, região conhecida como Pequena África, tinha o objetivo principal de compreender a história do palacete e as mudanças pelas quais a construção passou, mas revelou muito mais.

O Palacete do Museu Real foi o primeiro museu do Brasil, criado em 1818 por D. João VI. Depois passou a se chamar Museu Nacional, funcionando no mesmo endereço até 1892, quando foi transferido para o Palácio de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista. Entre os anos de 1905 a 1906, o palacete foi reformado para acolher o Arquivo Nacional, que guarda os documentos da administração pública do Brasil. Finalmente, em 2010, houve uma nova reforma para transformar o palacete no Centro Cultural da Casa da Moeda.

Vaso cerâmico do período em que o Brasil era colônia de Portugal.
Foto Bruno da Costa Paiva

Nas escavações, além da descoberta de pisos dessas diferentes ocupações, também foram coletados diversos objetos que correspondem principalmente aos séculos 18 e 19. Foram encontrados, ainda, búzios e cachimbos. Todos esses achados, por suas características e pela forma como foram encontrados, parecem estar relacionados às práticas religiosas de matriz africana. O estudo desse acervo possibilita conhecer melhor a religião e os costumes desses grupos.

Cais do Valongo

A partir de 2011, a cidade do Rio de Janeiro passou por outra grande obra. Desta vez, o objetivo era revitalizar a zona portuária, isto é, reformar a região onde os navios atracam para que as pessoas voltassem a circular por lá. Quando as obras começaram… Diversos outros sítios arqueológicos relacionados à herança africana foram revelados.

Um exemplo importante é o Cais do Valongo. Trata-se de um antigo cais do século 19, onde ocorria o desembarque dos africanos escravizados para serem vendidos. Nas escavações foram coletadas mais de 400 mil peças que, pela quantidade e variedade, mostraram ser um valioso acervo sobre a chegada dos africanos no Brasil. (Saiba mais sobre o Cais do Valongo na seção Onde Estamos?, CHC 291)

Pingente figa de madeira, encontrado enterrado no Cais do Valongo.
Foto João Maurício
Búzios que estavam enterrados no Cais do Valongo.
Foto João Maurício

Participar para preservar

Muitas pesquisas continuam em andamento e novas descobertas vão surgindo. A arqueologia  revela a História de grupos que não deixam escrita a sua própria História, e contribui para recuperar informações que não estão escritas nos livros ou nos documentos.

É preciso registrar o quanto a participação da sociedade foi e é importante para a preservação desses sítios arqueológicos urbanos. Tanto o casal Guimarães quanto o Issac cooperaram com os pesquisadores, ajudando a redescobrir e trazer à tona o que se encontrava no esquecimento.

O casal Guimarães até comprou o casarão ao lado de sua residência e doou para a criação do Instituto dos Pretos Novos, que se tornou um centro cultural de referência sobre a cultura afro-brasileira, com exposições, cursos, atividades educativas e pesquisa.

O que aprendemos com eles é que todos os moradores de uma cidade podem auxiliar nesse processo de preservação com aquilo que puder oferecer, mesmo que seja só um pouquinho de atenção.

Guadalupe Campos

Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST)

Matéria publicada em 24.09.2018

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Achei muito interessante essa ideia!

    Publicado em 28 de outubro de 2018 Responder

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admin

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