De férias com as baleias

Quando acaba o verão no hemisfério sul, as baleias-jubarte vivem seu grande momento: é tempo de viajar, migrar, nadar muito! E elas não viajam sozinhas. Quando uma baleia inicia a migração para águas mais quentes, as demais migram juntas. Elas percorrem o oceano Atlântico em busca de um novo ambiente para ter e amamentar seus filhotes. Você quer fazer parte dessa grande aventura que é a migração das baleias? Coloque aí seu pé-de-pato e vem com a gente!

Foto Jonathan Wilkins/Wikimedia Commons

Nos meses de abril e maio, os dias começam a ficar mais curtos. Para as jubarte, que estão lá pela região subantártica, é como se soasse uma campainha informando que seu alimento, concentrado naquele local frio, começará a reduzir. É o sinal de que devem se dirigir para águas quentes. Então, elas arrumam as malas… Ops! Brincadeirinha! Elas nadam geralmente em grupo rumo ao lugar onde vão passar o inverno e parte da primavera do hemisfério sul.

Para os pesquisadores que estudam o comportamento das baleias-jubarte, a migração simboliza um momento especial: a chegada dos filhotes. As futuras mamães-baleia iniciam essa viagem bem gordinhas. Afinal, passaram quase seis meses comendo muito, mas muito mesmo, de um camarãozinho chamado krill, que existe em enormes quantidades nas águas geladas.

Os bebês-baleia mostrarão o resultado da boa alimentação de suas mamães: já sairão da barriga com cerca de quatro metros de comprimento! Mas o melhor é que nascerão em águas mais quentes e rasas, protegidas de predadores, como tubarões e orcas. Esse lugar especial fica na costa do Brasil e chama-se Abrolhos!

 

Rumo ao arquipélago

Abrolhos é um arquipélago, um conjunto de ilhas, que fica no sul da Bahia. As águas de lá são sempre quentes, com temperaturas acima dos 20 graus. Há também um fundo de corais que afasta os predadores e deixa o mar mais calmo. Abrolhos é uma maternidade perfeita.

Como são poucos lugares nos oceanos com essas condições, vale a pena migrar quase 7 mil quilômetros e chegar nesse paraíso para os bebês-baleia.

As baleias-jubarte, quando mergulham, mostram a cauda gigante.
Fotos Júlio Cardoso/Projeto Baleia à Vista

GPS de baleia

Como os pesquisadores têm certeza de onde as baleias vêm? Os cientistas usam uma tecnologia avançada: colocam pequenos rastreadores de satélite debaixo da pele da baleia, que pode assim ser acompanhada por toda a jornada. É como se as baleias andassem com um celular informando onde estão. Esse ano, um grupo de pesquisadores britânicos conseguiu implantar esses rastreadores em duas baleias-jubarte que estão sendo monitoradas por todo o caminho. Conseguem ver em tempo real o caminho que elas estão percorrendo.

As baleias saíram das Ilhas Geórgias do Sul, na região subantártica, mais ou menos em abril e maio e estão percorrendo o litoral brasileiro. Em junho, deram um espetáculo saltando das águas no Rio de Janeiro! E continuaram seguindo viagem. A previsão é que cheguem em Abrolhos até agosto.

Esse caminho que as baleias-jubarte de hoje fazem um dia foi feito por suas mães e um dia será feito por seus filhotes também. É como se a mamãe-baleia apresentasse o litoral do sudeste do Brasil para o bebê, que vai assim gravando na memória por onde deve seguir quando for adulto e tiver que migrar também.

Antes de chegarem em Abrolhos, as jubartes passam pela Ilha de Trindade, no Espírito Santo.
Foto Ignacio B. Moreno/ProTrindade

Caminho bem guardado

O contorno do litoral é bem importante para as baleias encontrarem o caminho para Abrolhos. A impressão que se tem é de que, quando elas chegam no Rio de Janeiro e avistam a cidade, o Maçico da Tijuca, Niterói, Piratininga, Maricá, Saquarema, Arraial do Cabo, Búzios, sabem que precisam continuar subindo. Ainda terão pela frente a costa do Espírito Santo e, finalmente, Abrolhos!

Às vezes acontece de algumas jubarte continuarem subindo depois de Abrolhos e serem avistadas no litoral da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Quanta disposição para viajar!

 

Do inverno ao verão

É interessante saber que as baleias não combinam uma hora para viajar. A migração vai acontecendo ao longo dos meses de inverno. Assim como nós humanos fazemos quando vamos pegar a estrada no feriado: uns saem mais cedo, outros um pouco mais tarde, ou ainda bem tarde, porém todas chegam ao seu destino.

A volta também se dá dessa forma, e, no final, todo mundo se junta novamente nas águas frias do hemisfério sul para comer bastante, compensando aqueles meses de que viveram apenas da gordura acumulada.

 

Quer acompanhar a rota de migração da baleia-jubarte? Clica aqui!

Salvatore Siciliano,

Laboratório de Enterobactérias,
Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Sérgio Carvalho Moreira,

Setor de Mamíferos, Departamento de Vertebrados,
Museu Nacional/UFRJ.

Matéria publicada em 17.07.2019

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