CRISPR: parece biscoito, mas não é!

Cá entre nós, CRISPR (pronuncia-se “crisper”) bem que parece nome de biscoito. Mas, como o título do texto já diz, não é. CRISPR é algo novo e tão incrível que mereceu até o Prêmio Nobel em 2020, o prêmio mais importante da ciência! Está mais para tesoura do que para algo comestível. Você já vai entender…

Ilustração Bruno Okada

Para entender o que é CRISPR, primeiro é preciso saber o que é DNA e qual é a sua função. Então, vamos lá! DNA é algo que fica dentro de todas as células de um ser vivo – seja uma bactéria, uma planta, um fungo, uma pessoa, um elefante…! E a função do DNA é determinar as características físicas desse ser vivo. Outra coisa interessante sobre o DNA é que ele é formado por uma combinação de quatro componentes representados pelas letras A, C, G e T, que se repetem muitas vezes, como se fosse uma grande “sopa de quatro letrinhas”. Essa combinação de letras forma o que chamamos de “código da vida” e é única para cada indivíduo, ou seja, cada ser vivo tem a sua própria sequência de DNA.

Mesmo cada indivíduo apresentando uma sequência de DNA diferente, algumas partes desse DNA (chamadas de genes) são idênticas ou muito parecidas, pois contêm informações (ou códigos) essenciais para a vida de todos os indivíduos. Às vezes, alguns desses genes vêm “escrito errado”, ou seja, a sequência de letrinhas vem com o código trocado e aquele indivíduo pode ficar doente. Talvez você até já tenha ouvido falar de algumas doenças que acontecem por causa disso. O câncer, por exemplo, é uma doença que acontece por uma combinação de vários fatores, incluindo alterações (mutações) na sequência de DNA.

 

Consertando o DNA

Não seria legal se a gente conseguisse corrigir uma sequência de DNA com o código trocado e assim curar ou evitar uma doença? Os cientistas vêm tentando isso há muito tempo, mas não é uma tarefa muito fácil.

Recentemente, uma grande chance de ajustes no DNA surgiu! Duas cientistas, a estadunidense Jennifer Doudna e a francesa Emmanuelle Charpentier, criaram uma ferramenta que pode ser a solução para esses problemas genéticos. Essa ferramenta é o CRISPR (ou CRISPR-Cas)! Ela é tão incrível e fácil de usar que as cientistas ganharam o Prêmio Nobel de Química em 2020. Esse prêmio é normalmente dado para pessoas que realizaram contribuições muito importantes para a humanidade.

CRISPR é uma ferramenta genética capaz de reconhecer uma sequência de DNA e cortá-la. Isso mesmo, corta a molécula de DNA como se fosse uma tesoura.

 

Mas de onde surgiu a “tesoura” CRISPR?

Das bactérias. Isso mesmo, daqueles seres microscópicos! Durante a vida de uma bactéria, ela pode ser atacada por vírus. Sim, existem vírus que atacam bactérias também. E como isso acontece? Esses vírus colocam os seus próprios DNAs dentro da bactéria para que ela fique “doente”. E, para se defender desses vírus, algumas bactérias podem utilizar a ferramenta CRISPR, que reconhece e corta o DNA do vírus invasor, eliminando a infecção. Cerca de metade das bactérias possui esse mecanismo de proteção contra vírus de forma natural.

As duas cientistas que ganharam o prêmio Nobel tiveram a brilhante ideia de transformar esse sistema de defesa de bactérias contra vírus em uma ferramenta capaz de reconhecer sequências de DNA de qualquer origem. Além de reconhecer e cortar qualquer sequência (por exemplo, sequências de DNA com código trocado que podem levar a doenças), é possível em alguns casos corrigir o erro, inserindo um pedaço de DNA com a sequência correta.

Mil e uma utilidades

Além de ajudar no combate a doenças associadas a alterações na sequência de DNA, essa ferramenta pode ser usada para muitas outras finalidades e nos mais diferentes seres vivos. Por exemplo: pode ser aplicada para estimular o crescimento de plantas, como o arroz, aumentando a produção de alimentos. Há também estudos em andamento para utilizar essa ferramenta para combater doenças causadas por vírus que infectam seres humanos, outros animais e até plantas.

Porém, deve haver limites para o uso dessa ferramenta, já que as possibilidades parecem ilimitadas. Alguns cientistas estão querendo usar essa ferramenta para eliminar espécies inteiras que transmitem doenças ou que causam prejuízos na agricultura. Outros já disseram que é possível recriar espécies extintas! Parece ficção científica, não é? Seja lá o que se possa fazer com o CRISPR, o fato é que leis precisam ser criadas no mundo todo para determinar o que é permitido ou não.

E você teria alguma ideia de uso dessa ferramenta para melhorar a vida no planeta Terra?

Felipe Piedade Gonçalves Neves
Instituto Biomédico
Universidade Federal Fluminense

Rachel Leite Ribeiro
Faculdade de Medicina
Universidade Federal Fluminense

Matéria publicada em 01.12.2020

COMENTÁRIOS

  • Nicolas Costa

    por que uma criança ia querer cortar dna?

    Publicado em 1 de dezembro de 2020 Responder

    • Karina Loureiro

      Por que não iria querer? Por que uma criança não iria querer entender o mundo, crescer, estudar e descobrir curas para doenças? 🙂

      Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • Nicolas Costa

    por que uma criança ia querer cortar dna dos outros?

    Publicado em 1 de dezembro de 2020 Responder

    • Yasmin Teixeira

      porque elas amam!

      Publicado em 1 de dezembro de 2020 Responder

  • Elisa

    Gostei muito de saber o que é CRISPR, e parece nome de biscoito mesmo!!!😹

    Publicado em 1 de dezembro de 2020 Responder

  • Samara

    Muito legal essa matéria!

    Publicado em 1 de dezembro de 2020 Responder

  • Yasmin Teixeira

    aquelas crianças que amam a ciência! nunca subestime isso porque eu sou assim!

    Publicado em 1 de dezembro de 2020 Responder

  • Elisa Victoria Santos Pereira

    Ah burro

    Publicado em 1 de dezembro de 2020 Responder

  • Emanuelle

    Amei essa matéria!😍

    Publicado em 1 de dezembro de 2020 Responder

  • Elis

    Eu também

    Publicado em 1 de dezembro de 2020 Responder

  • Felipe Piedade G. Neves

    Obrigado pela oportunidade de escrever sobre ciência para crianças, especialmente esse tema super interessante. Se conseguirmos despertar nas crianças o interesse pela ciência, nosso futuro será muito melhor. Espero que gostem da leitura

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

    • Paulo Vitor

      Parabéns, Felipe!
      A divulgação científica para crianças é um desafio muito gratificante. Desafio porque adequar a linguagem da um certo trabalho e gratificante porque é lindo ver os olhinhos curiosos dos pequeninos, brilhando quando entendem coisas que parecem mágica!
      Siga esse caminho de trazer cada vez mais jovens para o lado da ciência e com certeza o futuro será bem melhor.
      Ótima matéria!

      Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

      • Felipe Piedade G. Neves

        Obrigado pela mensagem de incentivo, Paulo Vitor.
        De fato, a adequação da linguagem é um desafio e agradeço muito aos editores da Revista que foram fundamentais nesse processo. Abraços!

        Publicado em 2 de dezembro de 2020

  • Eliane Aguiar

    Parabéns aos cientistas pela descoberta! Muito bem explicado! Adorei a matéria!

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • Silvia Cavalcanti

    Que legal, Felipe! Parabéns!
    Precisamos falar muiiito de ciência para crianças!

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • Rachel Ribeiro

    Faço minha as palavras do Felipe! Foi muito bom sair da escrita científica e despertar o interesse nas crianças! Espero que gostem!

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

    • Elizabeth Taveira Ramos

      Muito bom, matéria muito interessante para crianças e senhorinhas também.
      Parabéns
      Orgulho

      Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • Michele

    Amei a materia tia Rachel!!

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • Richad braithynei bispo silva

    Uma materia muito boa
    Gostei muito

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • Cláudia Vitral

    Que texto bacana é bem escrito ! Parabéns Felipe e Rachel pela iniciativa!

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • Silvane Vechi

    Gostei muito!
    Parabéns

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

    • Arthur

      concordo

      Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • Arthur

    eu achei incrível! muito legal e interessante

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • otávio g. s. b.

    CHC

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • Aline Rosa

    Parabéns Felipe e Rachel! Crianças são curiosas por natureza e estimular o interesse pela Ciência é essencial! Adorei !

    Publicado em 2 de dezembro de 2020 Responder

  • alice

    esse chc é muuuuuitooooo legal eu quero que o chc fazem mais curiosidades 😺😺😺😺😺

    Publicado em 3 de dezembro de 2020 Responder

  • Cleidenice

    gostei muito dessa matéria. Obrigada!1

    Publicado em 3 de dezembro de 2020 Responder

  • Milena Moreira Mamede

    Eu AMEI esse conteúdo!!!!!

    Publicado em 3 de dezembro de 2020 Responder

  • sofia izidro

    costei muito desti cripr

    Publicado em 8 de dezembro de 2020 Responder

  • Priscila

    Muito boa materia. Da vontade de saber mais e mais!! Obrigada : ) Nao da p usar contra o Covid -19 e doencas degenerativas como Alzheimer?

    Publicado em 16 de dezembro de 2020 Responder

    • Felipe Piedade G. Neves

      Dá sim, Priscila. Na verdade, já tem um teste para diagnóstico de COVID-19 comercializado nos EUA que é baseado em CRISPR. Mas para tratamento baseado em CRISPR, o caminho ainda é meio longo. Já há estudos para várias doenças virais e neurológicas também.

      Publicado em 11 de janeiro de 2021 Responder

  • Matheus resende

    Adorei a matéria.

    Publicado em 6 de janeiro de 2021 Responder

  • Lucas P. e Samuel D.

    Querido pessoas de CHC. Nos somos Lucas Payant e Sam Durrant Nos achamos a revista e interestante.Nos lemos a revista CRISPR. E interestante que podem cortar DNA. Mas eu acho que vai ser mais interestante e que voce fez um artigo sobre buraco nigros!
    Tchau,
    Lucas P. 10 anos
    Sam D. 11 anos

    Publicado em 20 de janeiro de 2021 Responder

  • Lucas P. e Samuel D.

    Desculpe se eu tenho ortografia ruim.

    Publicado em 20 de janeiro de 2021 Responder

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