A voz de Mahin

Livre na África, contra a escravidão no Brasil, Luiza é gente da nossa história

A história de Luiza Mahin não é encontrada nos livros. Sabe-se que ela era a mãe do poeta, abolicionista e grande advogado brasileiro de sua época Luiz Gama. Assim como seu filho, ela é considerada uma das mais importantes personalidades da luta contra a escravidão no Brasil. A primeira vez que citaram o seu nome foi em uma carta escrita por seu filho a um amigo, em 1880. Nela, Luiz Gama escreveu que sua mãe era uma mulher livre, baixa, magra, natural da Costa da Mina, na África, e que recusou o catolicismo, mantendo-se fiel às suas crenças religiosas.

Luiz Gama diz, ainda, que Luiza era altiva, geniosa e vingativa. Dava a entender que era uma mulher forte, que lutava pelo que acreditava, suportava as derrotas e sabia cobrar dos adversários, quando estava correta.

Ilustração Nato Gomes
Imagem de reconstituição com base em relatos de época.

Muito trabalhadora, Luiza Mahin era uma quitandeira, uma vendedora ambulante, e se comunicava muito bem com outras pessoas, libertas e escravas, da cidade de Salvador, na Bahia, onde morava. As mulheres quitandeiras eram figuras importantíssimas da época da escravidão. Além de garantirem o abastecimento de comida das cidades, vendendo os produtos para as pessoas, elas conheciam muita gente, trocavam ideias, ajudavam os escravos necessitados, auxiliavam nas suas fugas e rebeliões.

Isso explica como e por que Luiza Mahin possivelmente se envolveu nos levantes de escravos e libertos que lutavam contra a escravidão na Bahia.

Nas três primeiras décadas dos anos 1800, diversas revoltas dos negros escravizados e negros abolicionistas abalaram a elite baiana. A mais famosa delas foi a Revolta dos Malês, em 24 de janeiro de 1835. Malês era como se chamavam os africanos muçulmanos na Bahia (negros que cultuavam a religião islâmica). Grande parte das lideranças do movimento de 1835 era de malês. No entanto, esta revolta escrava foi mais ampla, envolvendo também integrantes do candomblé e de diferentes origens africanas. Tanto negros escravizados quanto negros libertos faziam parte. Isso porque a experiência de vida de todos era muito comum: racismo, dificuldades financeiras no trabalho de rua em Salvador, sofrimento no cativeiro etc.

O nome de Luiza Mahin não aparece em qualquer documento da época entre os presos pela Revolta dos Malês, apesar de algumas pessoas acreditarem que Luiza fez parte dela. Luiz Gama, seu filho, deixou registrado que, depois de outra revolta na Bahia, Luiza Mahin mudou-se para o Rio de Janeiro, nunca mais voltando para a Bahia. Na verdade, Luiza e os companheiros foram perseguidos por conta da sua religião. Uma hipótese é de tenham sido mandados para fora do país, mas não se tem qualquer notícia do seu paradeiro. Luiz Gama procurou por sua mãe por toda sua vida, mas nunca a encontrou.

Luiza Mahin era como praticamente toda mulher negra, escrava do país: doava o seu amor aos filhos, tinha medo do cativeiro e dos castigos. Resistia bravamente. Era trabalhadora. Era incansável. Era símbolo de resistência. Chegou a vez de ouvirmos as “Mahins” do nosso país!

 


 

Pedro Krause
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 24.05.2019

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