Quem não gosta de samba…

Colocar uma fantasia, juntar-se a um bloco na rua e cair na folia: quem está passando o carnaval no Rio de Janeiro provavelmente experimentou essa festa. Mas muitos foliões e foliãs de hoje não sabem que esta maneira de celebrar o carnaval tem origens lá no início do século 19.

Naquela época, a festa tomava as ruas, com músicas de todos os ritmos tocando sem parar e pessoas jogando água umas nas outras. Esse jeito de brincar o carnaval era chamado “entrudo” e, por mais que parecesse divertido, tinha gente que não gostava.

Esta pintura de Augustus Earle, de 1822, retrata as brincadeiras do “entrudo”. (imagem: Wikimedia Commons)

Esta pintura de Augustus Earle, de 1822, retrata as brincadeiras do “entrudo”. (imagem: Wikimedia Commons)

O “entrudo” era para todos. Em alguns lugares da cidade, reuniam-se os pobres, cuja maioria era de negros; em outros pontos, ficavam os brancos de classes mais altas. Porém, depois da chegada da Corte portuguesa no Brasil, em 1808, os hábitos começaram a mudar. Os tais ricos resolveram proibir o “entrudo” e copiar o elegante carnaval dos desfiles, típico da cidade francesa de Nice.

Por volta de 1840, formaram-se as chamadas sociedades carnavalescas. Eram grupos organizados que, em geral, usavam fantasias reproduzindo as roupas da Corte e desfilavam em carros maravilhosos pelas ruas do centro da cidade. Nessa época, surgiram também os bailes de máscaras. Essa nova maneira de brincar o carnaval era considerada muito mais bonita que o “entrudo”. Só que os pobres não podiam entrar na festa…

Carnaval às escondidas

Carnaval popular na Avenida Rio Branco. (foto: Arquivo Nacional)

Carnaval popular na Avenida Rio Branco. (foto: Arquivo Nacional)

A partir de 1907, a recém-construída Avenida Rio Branco virou passarela dos pomposos carros alegóricos. Nas ruas transversais a essa avenida principal, os que eram excluídos da festa enfrentavam a polícia e faziam seu próprio carnaval. Eles vinham a pé, formando os chamados cordões, que deram origem aos blocos.

Além dos cordões, um grupo vindo da Bahia depois da abolição da escravatura, em 1888, denominado negros baianos, também teve papel importante na luta pela manutenção do carnaval popular. Eles formavam os ranchos, que a princípio eram uma espécie de procissão religiosa – só que, como tudo acaba em samba, também eram parte do carnaval.

As classes média e alta continuavam sem querer ouvir falar dessa folia de pobres e insistiam com a polícia para impedi-lo. Mas existia um lugar na cidade em que os pobres podiam fazer seu carnaval sossegados: a Praça Onze. Os mais ricos não iam lá porque achavam que os batuques eram de mau gosto e que todos os que lá estavam eram ladrões e encrenqueiros.

Mal sabiam eles que os batuques virariam o nosso famoso samba e que, dentre os que eram considerados foras-da-lei, estavam pessoas que mais tarde seriam reconhecidas como grandes compositores!

Ricos e pobres na avenida

Só depois de 1920 o tal carnaval dos pobres ganhou força. Alguns intelectuais da época passaram a frequentar a Praça Onze, onde conheceram homens que eram vistos como malandros só porque queriam ganhar a vida compondo e cantando samba.

Hoje o desfile das escolas de samba é uma das principais atrações do carnaval do Rio de Janeiro. (foto: Marcus Correa / Flickr / <a href=http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/deed.pt>CC BY-NC-ND 2.0</a>)

Hoje o desfile das escolas de samba é uma das principais atrações do carnaval do Rio de Janeiro. (foto: Marcus Correa / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

Na década de 1930, o carnaval popular foi reconhecido e começou a se organizar melhor. O desfile das escolas de samba foi oficializado e, em pouco tempo, o Rio de Janeiro passou a atrair turistas de todos os cantos do mundo para esta grande festa!

(Esta é uma reedição do texto publicado na CHC 65.)

Matéria publicada em 05.02.2016

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Rachel Soihet

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