A imaginação e o delírio de um cavaleiro andante

“Poderiam perder-se todos os exemplares do Quixote, em castelhano e nas traduções; poderiam perder-se todos, mas a figura de Dom Quixote já é parte da memória da humanidade.”
Jorge Luis Borges, escritor argentino

Dom Quixote e Sancho Pança retratados pelo pintor espanhol Pablo Picasso

Um cavaleiro andante que vivia num mundo de sonhos e seu fiel escudeiro resolveram, no século 17, caminhar pela Espanha à procura de aventuras. Essa história, a princípio simples, elevou seu criador ao posto de um dos maiores escritores da literatura mundial. Estamos falando do espanhol Miguel de Cervantes que, em 1605, escreveu o livro El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha.

Naquela época, os livros de cavalaria eram muito populares. Narravam histórias fantásticas, com personagens nobres, puros e que lutavam pelo amor, pela paz e pela justiça. Miguel de Cervantes resolveu inovar e criou um personagem que gostava demais de ler esses livros. Gostava tanto que enlouqueceu, a ponto de querer imitar os seus heróis. Assim nasceu Dom Quixote.

O nobre endoidecido andava pela Espanha como se fosse um desses grandes homens dos livros de cavalaria. Mas para que sua aventura fosse parecida com as maravilhosas proezas daqueles heróis, a imaginação delirante de Quixote fez alguns ajustes na realidade. Tratava monges como feiticeiros e lutava com moinhos de vento como se fossem gigantes malfeitores, convencendo-se de que apenas homens destemidos como ele poderiam derrotá-los e, assim, trazer paz e justiça para a Espanha.

Leia abaixo um poema de Carlos Drummond de Andrade sobre Dom Quixote:

Disquisição na insônia
Que é loucura; ser cavaleiro andante
Ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
Vê o real e segue o sonho
De um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
E me sabendo tal, sem grão de siso,
Sou – que doideira – um louco de juízo.

A história de Dom Quixote encantou muitas pessoas. No mesmo ano em que o livro foi lançado, foram feitas seis edições. No que se refere a traduções, a obra só é superada pela Bíblia. Além disso, inspirou peças de teatro, óperas, balés, filmes, programas e desenhos animados. Os espanhóis Salvador Dalí e Pablo Picasso e o brasileiro Cândido Portinari foram alguns dos pintores que tentaram dar forma aos personagens de Cervantes. O escritor brasileiro Monteiro Lobato também era fã da história e escreveu Dom Quixote para crianças, contado por Dona Benta .

A herança de Dom Quixote é tão forte que existe até um adjetivo – quixotesco – para se referir aos homens que, como o cavaleiro, são extremamente idealistas.

Dom Quixote e Sancho Pança pintados pelo brasileiro Cândido Portinari

O engenhoso fidalgo e seu fiel escudeiro

Ao escrever Dom Quixote, Miguel de Cervantes pretendia ridicularizar os livros de cavalaria, que eram muito populares na sua época, por narrarem histórias fantásticas cheias de realce e pompa na ação dos personagens. Assim, em seu livro, o personagem principal é um nobre que enlouqueceu porque lia sem parar esses romances, e que passou a querer imitar seus heróis preferidos. Amadis de Gaula , Diana , La Araucana e Orlando Furioso são alguns desses livros citados por Cervantes como pertencentes à biblioteca de Dom Quixote.

O nobre chamava-se, na verdade, Alonso Quijano e acreditava de tal forma nos ideais cavalheirescos de amor, paz e justiça que se preparou para sair pelo mundo em defesa desses valores. Numa região espanhola chamada Mancha, Alonso Quijano escolheu um título bonito para usar: Dom Quixote de la Mancha. Depois, apelidou um cavalo velho de Rocinante e elegeu uma mulher ideal a quem dedicou seu amor: uma camponesa que ele viu como uma dama da alta nobreza e a quem deu o nome de Dulcinea del Toboso. Em suas aventuras, Quixote levou junto seu fiel escudeiro, o pobre camponês Sancho Pança.

No livro, Dom Quixote representa o lado espiritual e nobre da natureza humana, o amor do honesto e do ideal, tão valorizado nos tais romances de cavalaria. Já o cavaleiro Sancho Pança, cheio de responsabilidades e preocupações, vivia num mundo oposto ao de seu amigo. Aliás, a amizade entre o cavaleiro e o escudeiro é considerada uma das manifestações de maior respeito entre pessoas diferentes descritas na literatura. Na história de Cervantes, os dois saem pela Espanha em busca de aventuras. A narrativa tem dois planos: o imaginário, que seria o mundo do cavaleiro, e o realista, representado pela visão do escudeiro.

Talvez pelo modo como soube dosar imaginação e realidade, Cervantes ficou conhecido como um dos maiores escritores do mundo. Quando constrói o plano da imaginação, ele mantém as dimensões e a estrutura do mundo real. E consegue isso através do amor que Dom Quixote dedica a seus sonhos. O cavaleiro vive neles como se só existisse aquela maneira de ver o mundo. Ele ama, respeita e entende tão bem esse mundo que o leitor, às vezes, se confunde. Esse fato é de verdade ou é mais um dos sonhos do Quixote?

Quando Dom Quixote volta para casa, já está bastante cansado. Ele recupera a razão e volta a ser de novo o nobre Alonso Quijano, mas o próprio Sancho Pança, seu oposto no plano imaginário, o anima a partir em busca de novas façanhas heróicas! Assim, entre realidade e imaginação, Miguel de Cervantes não toma partido de nenhum dos dois mundos. Fica a cargo do leitor perceber que talvez não exista nada real que não tenha um pezinho na imaginação, nem nada que, vindo da imaginação, não possa pisar devagarinho na nossa realidade.

 

Matéria publicada em 05.07.2001

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Que engraçado!

    Publicado em 28 de outubro de 2018 Responder

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admin

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