A história dos cangaceiros

Os cangaceiros produziam suas próprias roupas, para homens (esquerda) e mulheres (direita). (fotos: Leonardo Cosendey).

“Eu me chamo Virgulino
Ferreira, Lampião
Manso como um cordeiro
Brabo como um leão
Trago o mundo em reboliço
Minha vida é um trovão.”

 
Com essa frase, Virgulino Ferreira, o Lampião, o cangaceiro mais famoso do Brasil, anunciava sua chegada a uma cidade. Ele despertava o terror em muitos, admiração em outros, e virou uma lenda no sertão do Nordeste brasileiro. A exposição sobre o cangaço na Mostra do Redescobrimento prende a atenção de adultos e crianças ao revelar uma parte da história brasileira da qual não há muita documentação.

Os cangaceiros eram foras-da-lei que percorriam o interior nordestino normalmente a pé. Saqueavam cidades e atiravam em quem entrasse em seu caminho. Um dos primeiros bandos de que se tem notícia é o do Cabeleira, da Bahia, na primeira década deste século. Muitos outros apareceram em diversos estados da região, mas nenhum se igualou em fama ao de Lampião, de Pernambuco. Pouco depois de sua morte, em 1938, o cangaço acabou. Corisco, do bando de Lampião, foi o último cangaceiro de quem se ouviu falar.

Alguns dos acessórios e armas usados pelos cangaceiros

Como você deve ter percebido, os cangaceiros eram conhecidos por apelidos, que eles mesmos escolhiam. No bando de Lampião, além do próprio e de Corisco, havia o Português, o Elétrico, o Sabonete, o Juriti… Eles também faziam suas próprias roupas, cheias de enfeites. Nos chapéus, por exemplo, bordavam um símbolo místico que achavam que os protegia. Mas a vaidade não ficava apenas no vestuário: eles também adoravam passar muito perfume. Misturada ao suor do corpo, a substância produzia um cheiro conhecido como ‘bodum’. Era tão forte que dizem que a polícia, quando perseguia os cangaceiros, os seguia pelo nariz!

A polícia, aliás, não tinha muita simpatia do povo sertanejo. As forças volantes, como eram conhecidas, recebiam apelidos de macacos, mata-cachorros e outros menos agradáveis. Mesmo assim, importantes fazendeiros da região apoiavam-na, pois queriam fora de circulação aqueles que haviam cometido crimes em suas terras – naquela época, os fazendeiros eram praticamente donos das cidades. A polícia seguia sem trégua os cangaceiros, muito difíceis de serem alcançados por conhecer bem o sertão. Porém, com o passar do tempo, as volantes incorporaram detalhes importantes dos cangaceiros, como as alpercatas (sapatos de sola fina próprios para andar no sertão) e receberam armas mais poderosas. O cerco aos antes intocáveis cangaceiros foi se fechando até o cangaço finalmente desaparecer com a morte de Corisco.

No entanto, nota-se até hoje a influência do movimento na cultura brasileira. Sobre ele, foram feitos muitos livros, filmes, bonecos, gravuras… Depois de extinto, o cangaço tornou-se quase uma história mitológica, de grande influência sobre o povo – principalmente o sertanejo.

O rei do cangaço

Também conhecido como o Rei do Cangaço, Virgulino Ferreira nasceu em Pajeú, sertão de Pernambuco, em 1897, e morreu em Angicos, no Estado de Sergipe, em 1938. Contam que seu apelido foi originado por sua espingarda que, ao atirar no escuro, “iluminava a noite do sertão como um lampião”.


Ele acabou por tornar-se o mais famoso cangaceiro porque tinha muito cuidado com sua imagem. Gostava de definir-se como nem bom, nem mau, como o “cordeiro e leão” do verso que recitava quando chegava nas cidades. Essas duas faces despertavam grande admiração (e ódio) por todo o Nordeste.

Foi o grupo dele, também, o mais fotografado. Benjamim Abrahão Botto, fotógrafo, conseguiu permanecer meio ano acompanhando o bando e registrando vários momentos de sua vida. Além das fotos, há um registro filmado dos cangaceiros, feito também pelo fotógrafo, que foi apreendido pelo governo da época. Lampião é a grande estrela, e aparece lendo jornal, fumando, passando pelo sertão, exercitando tiro… A proibição do filme foi motivada, principalmente, pela ira da polícia, que não conseguia encontrá-lo de jeito nenhum enquanto Benjamim conviveu com eles tão tranqüilamente.

Entretanto, em 1938, a volante comandada pelo Tenente Bezerra, de Pernambuco, conseguiu encurralar o bando na região de Angicos, em Sergipe. Com isso, o tenente conseguiu a recompensa oferecida pela captura do líder do grupo. E ainda ficou, como prêmio, com a jabiraca – o lenço em torno do pescoço – de Lampião, que foi morto a tiros com os seus companheiros. As cabeças de todos foram cortadas e expostas posteriormente na cidade.

Matéria publicada em 25.10.2000

COMENTÁRIOS

Envie um comentário

Leonardo-Cosendey

CONTEÚDO RELACIONADO

Um mergulho com os peixes

Acompanhe o final da aventura de Rex, Diná e Zíper e suas descobertas no fundo do mar.

Rex, Diná e Zíper em…

Um lanchinho para os peixes. É correto alimentar esses animais na natureza?